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23 de mar. de 2014

Os Primeiros Esplendores


"A splendid branch issues from the old plum tree;
At the same time, obstructing thorns flourish everywhere."
(Keizan Jokin)*

~~

Das quatro estações do ano, a Primavera é possivelmente a mais feliz. Para nós, brasileiros, as estações podem ir e vir sem nem percebermos - exceto, talvez, quando começa e quando termina o Verão e precisamos adiantar ou atrasar nossos relógios em uma hora. Na maioria do hemisfério norte, contudo, os Invernos têm neve, as Primaveras têm flores, os Verões têm calor insuportável e os Outonos têm ruas abarrotadas de folhas secas.

Em Tokyo, o frio começa em meados de novembro; e pela primeira semana de dezembro, os termômetros já começam a descer abaixo dos 10 ºC. De dezembro até começo de abril, sair pra fora de casa sem casaco é masoquismo, já que as temperaturas flutuam do subzero aos 15, 16 ºC (max) em dias excepcionalmente quentes. Ou seja, passamos cerca de 1/3 do ano enrolados em roupas de frio e sob aquecedores: dá pra imaginar o quão prazeroso é sair para dar uma volta de camiseta, curtir um vento morno e ver as árvores saindo do seu estado hibernal e começando a florir.

Ciclo dos 24 termos solares asiáticos
Anteontem (dia 21 de março), celebrou-se aqui no Japão o "Dia da Primavera" (春分の日, shunbun no hi), um feriado nacional. Ele coincide com o que chamamos de equinócio de primavera (ou vernal) no Ocidente. A palavra equinócio deriva do latim aequinoctium, formada pela aglutinação de aequus (igual) e noctium (de noites), sugerindo o dia em que o número de horas do período diurno é equivalente ao número de horas do período noturno. No calendário ocidental, a primavera começa a partir do dia de equinócio vernal; mas aqui no Japão começa um pouco antes. O calendário tradicional do leste asiático é divido em 24 "termos solares", que marcam as principais mudanças na natureza. O primeiro evento do ano é o risshun (ou lichun, em mandarim), 立春, que significa a entrada da Primavera, e geralmente ocorre pelos primeiros dias de fevereiro, bem próximo do ano novo lunar/Chinês. Este evento é astronomicamente definido a partir do dia em que a longitude solar [1] atinge 315º (o equinócio vernal ocorre quando sua longitude atinge 0º), o que em 2014, por exemplo, ocorreu no dia 4 de fevereiro. Tradicionalmente, simboliza o meio do caminho entre o solstício de inverno e o equinócio vernal e representa o dia mais frio do ano: dali pra frente as temperaturas começam a subir gradualmente, conforme a primavera vai se desenrolando. O período que chamamos de primavera compreende, neste calendário asiático, os primeiros 6 pontos, viz. 立春 (entrada da primavera), 雨水 (água das chuvas [2]), 啓蟄 (acordar dos insetos [3]), 春分 (equinócio vernal), 清明 (clareza e brilho [4]), 穀雨 (chuva dos grãos [5]) e termina na véspera do rikka, 立夏, a entrada do Verão (6 de maio).


Já que falamos em Ásia, o ideograma usado por aqui para denotar a primavera, 春 (haru em japonês, chūn em mandarim), é formado por composição semântico-fonética, do seguinte modo: a forma atual é uma simplificação de 萅, que contém o radical 艸 (grama, folhagem) em cima ( 艹 ) e 日(sol) embaixo e o indicador fonético 屯 (lido zhun em mandarim, e que também significa agrupar, juntar) no meio. Portanto, é um ideograma que sugere o nascimento das folhagens e o ressurgimento do Sol.

Já para nós, que falamos o bom e velho Português, nossa "Primavera" tem uma origem não menos interessante e curiosa! No Latim clássico, as quatro estações eram: veraestās, auctumnus e hibernum. Em Português antigo, essa divisão dera origem às estações como Verão (nossa atual Primavera), Estio (nosso atual Verão), seguidos do Outono e o Inverno. Este trecho de uma das cartas de Gil Vicente [6] ilustra a separação entre Verão e Estio:

"(...) E para que melhor sintam suas pacíficas concordâncias,
todos os movimentos que neste orbe criou,
e os efeitos deles são litigiosos,
e porque não quis que nenhuma cousa tivesse perfeita duração sobre a face da terra,
estabeleceu na ordem do mundo que umas cousas dessem fim às outras,
e que todo o género de cousa tivesse seu contrário,
como vemos que contra a formosura do Verão, 
o fogo do Estio, 
e contra a vaidade humana a esperança da morte,
e contra o formoso parecer as pragas da enfermidade,
e contra a força a velhice,
e contra a privança inveja,
e contra a riqueza, fortuna;
e contra a firmeza dos fortes e altos arvoredos,
a tempestade dos ventos;
fortuna, sorte, azar
e contra os formosos templos e sumptuosos edifícios,
o tremor da terra,
que por muitas vezes em diversas partes tem posto por terra muitos edifícios e cidades,
e por serem acontecimentos que procedem da natureza não foram escritos,
como escreveram todos aqueles que foram por milagre,
como templum pacis de Roma,
que caiu todo subitamente no ponto que a virgem nossa Senhora pariu."   

Pois como foi que o Verão virou Primavera e o Estio virou Verão? Na Roma antiga, o ano começava no mês de março (antes da reforma do calendário em 45 a.C. por Júlio César), junto com a Primavera. Talvez para destacar a celebração da renovação da vida, os primeiros dias da estação eram conhecidos como prīma vera (do plural neutro acusativo de prīmus + ver). Aparentemente, essa nomenclatura acabou sendo adotada ao longo das regiões do vasto império romano e absorvida pelos idiomas derivados do latim. De fato, o termo em Francês reflete esse aspecto de primazia dessa estação, ao chamá-la de printemps, a primeira época. No Português do século XVI, por exemplo, as estações eram Primavera, Verão, Estio, Outono e Inverno, sendo as duas primeiras partes do que hoje reconhecemos como Primavera. O vocábulo latino para primavera, ver, por sua vez, parece ter a mesma raiz do prefixo sânscrito vas-, significando resplandecer, brilhar [7],[8], e há os que digam que é a mesma raíz de verde. Portanto, a Primavera seria a estação dos primeiros esplendores da Natureza; quando ela começa a despertar do estado de hibernação (hibernum) e esbanjar um verde novo, em todo seu esplendor.


  


--
* "Um ramo esplêndido surge da velha ameixeira;
Ao mesmo tempo, espinhos florescem por todo lugar."

Verso composto pelo mestre Keizan ao lecionar sobre a vida do buda Shakyamuni. O nascimento de Shakyamuni é celebrado em 8 de abril, e coincide com o ápice da Primavera. In: Keizan. The record of transmitting the light [Denkoroku], 1300. Trad. de Francis Cook. Wisdom Publications: Boston, 2003. pg. 31.
[1] Vide explicação neste link

[2] Indica a época do ano em que o que chove é água, e não mais neve; e que a neve pode então começar a derreter.

[3] Com o aquecimento da terra, os insetos começam a sair do estado de hibernação.

[4] A Natureza desperta com força, brilho e clareza. É a época em que as flores estão no ápice do florescer, o momento ideal pro hanami.

[5] Os campos de plantação são preparados, e as chuvas de primavera caem para nutrí-los.

[6] Carta que Gil Vicente mandou de Santarém a el-rei dom João, o terceiro do nome, estando sua alteza em Palmela, sobre o tremor da terra que foi a 26 de Janeiro de 1531. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[7] Entrada de "Primavera", Dizionario Etimologico Online. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[8] Sir Monier Monier-Williams. A Sanskrit-English dictionary etymologically and philologically arranged with special reference to cognate Indo-European languages, Oxford: Clarendon Press, 1898, page 930. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014. 

25 de set. de 2012

Sílabas!

Os alfabetos silábicos do Japonês - com 46 símbolos cada* - nem sempre foram ensinados da forma como é feito hoje em dia, através de um painel silábico 5 vogais por 10 consoantes inspirado no sânscrito. Em meados do Período Heian (794-1179), por exemplo, surgiu o poema "Iroha" - supostamente escrito pelo grande monge budista Kuukai (空海)**-, composto usando todas as sílabas do alfabeto (um pantograma, portanto) apenas uma única vez, sem repetição. Ei-lo***:


いろはにほへと ちりぬるを
わかよたれそ つねならむ
うゐのおくやま けふこえて
あさきゆめみし ゑひもせす
Na versão contendo ideogramas:

色はにほへど 散りぬるを
我が世たれぞ 常ならむ
有為の奥山 今日越えて
浅き夢見じ 酔ひもせず


Segundo tradução do professor Ryuichi Abe:

Ainda que seu odor continue presente, a forma da flor já se foi
Para quem iria a glória do mundo permanecer imutável?
Ao tocar hoje o outro lado das profundas montanhas da existência evanescente,
Não devemos permitir-nos vagar, intoxicados, num mundo de sonhos rasos.    

Um outro pantograma, datado do século IX, é o ametsuchi no uta (天地の歌, canção do céu e da terra). Apesar de supostamente mais antigo que o poema anterior, sua estrutura é bem mais simples (ideogramas nos parênteses):


あめ つち ほし そら (天地星空)
やま かは みね たに (山川峰谷)
くも きり むろ こけ (雲霧室苔)
ひと いぬ うへ すゑ (人犬上末)
ゆわ さる おふせよ (硫黄猿生ふせよ)
えの枝を なれゐて (榎の枝を慣れ居て)


O Universo e a Terra, o céu estrelado;
Montanhas e rios, picos e vales;
Nuvens e neblina, quarto e limo;
Gente e cachorros, o topo do topo.
Enxofre, macaco, cresça!
Acostumo-me com os ramos de Enoki.


Apesar de extremamente simples, o poema contempla cinco temas - um em cada linha: Primavera, Verão, Outono, Inverno, memórias e paixão; e seu conteúdo é frequentemente utilizado como temática de haikus.


Vale notar a versatilidade que a construção silábica do Japonês permite ao idioma, especialmente quando se considera nessa mistura a capacidade de expressar ideias completas com o uso de um único símbolo através dos ideogramas. Um pantograma em Português, por exemplo, é bem menos poético: "Luís argüia à Júlia que «brações, fé, chá, óxido, pôr, zângão» eram palavras do português."

Talvez poderíamos pensar numa poesia pantogramática em sílabas? Hmm. Fica o desafio. :)

A título de curiosidade, os Chineses também têm suas versões de pantogramas (por incrível que pareça!). Um deles é o Qiān zì wén (千字文, clássico dos mil caracteres) e - como o nome sugere - é composto por mil ideogramas (hanzi, 漢字) sem repetir um sequer. Estruturado em 250 frases de 4 ideogramas cada, essa enorme obra escrita por Zhou Xingsi por volta do século V é utilizada até hoje para ensinar os jovens chinesinhos (e os 白鬼 aventureiros) a aprenderem seu idioma. Aos interessados, fica a dica! 加油!頑張れ! 



--

* No poema, são 47. Os caracteres ゑ (we) e ゐ (wi) caíram em desuso, aparecendo apenas em textos mais antigos; e surgiu o caractere ん, que não aparece no poema original (mas normalmente é recitado após a ultima sílaba). O silabário moderno é composto por 48 caracteres (mais 4 marcadores funcionais) escritos em dois tipos de alfabeto: hiragana (平仮名, alfabeto comum) ou katakana (片仮名, alfabeto fragmentado). Ambos são usados para reproduzir os 109 sons do Japonês moderno. Além do hiragana e do katakana, a língua Japonesa também faz uso de ideogramas (ou kanji, 漢字, símbolos com significado per se, ao contrário dos caracteres puramente sonoros dos dois sistemas silábicos) e de letras romanas (romaji, ローマ字).

** Kuukai (空海, oceano de vacuidade) - também conhecido pelo seu nome póstumo Koubou Daishi (弘法大師, o grande mestre propagador do Dharma), (774 - 835 d.C.) - foi um monge, poeta, servidor civil e acadêmico japonês. É considerado como patriarca fundador da escola budista esotérica Shingon no Japão. Apesar da crença popular, especialistas duvidam de sua autoria desse poema, cujo primeiro registro histórico data do início do século X.

*** Para ouvir monges cantando-o: http://www.youtube.com/watch?v=F3MSeUJ35MY. Há quem diga que esse poema foi inspirado no sutra do Nirvana (Supostamente, os últimos ensinamentos do Buda Shakyamuni antes de sua morte):




諸行無常 (Shogyō mujō)
是生滅法 (Zeshō meppō)
生滅滅已 (Shōmetsu metsui)
寂滅為楽 (Jakumetsu iraku) 


Todos os fenômenos são impermanentes:
Essa é a lei do nascimento e morte.
Na extinção do nascimento e morte,
O verdadeiro êxtase da liberdade dos desejos.




14 de jul. de 2012

Flying

青空よ
わたしを聞くな
我の声は
こころと同じ
バカすぎるから

青空よ
雲が好きなの?
最近は
ずっと灰色
ずっと曇りだ

嗚、夜空!
真っ黒い夜
月や星
全然見えぬ
今夜の空に

この空は
我の空虚が
遠くまで
広がっている
宇宙の果てへ






8 de jul. de 2012

神宮の中

あのみちを
ふたりが歩く
一緒に
ゆっくり進む
永遠までへ

29 de mai. de 2012

不眠症のおしゃべり

夜中に
書いた
君への
和歌を
誰でも
読めん

全部心から
書いていた
だけど僕は
言葉に全然
上手くない

いつか君に詠ってまたい
君は僕の和歌が分かるか
君は和歌が好きだろうか
君は僕のことを考えるか

夜中に
書いた
君への
和歌だ


30 de abr. de 2012

Compilação I

Há uns meses, cedi à tentação e adquiri um Moleskine. Tenho escrito nele e, num relapso de preguiça, deixei de atualizar aqui. Resolvi digitalizar e dividir aqui algumas das páginas dele.

Boa sorte com a caligrafia, hehehe. :)










(Textos do fim de inverno/início da primavera, 2012)

24 de mai. de 2011

Na espera

渋谷駅前。
ハチ子と一緒。
君を待ってる
ずっと帰ってるのに
ずっと待ってる。

12 de mai. de 2011

寝た時の雨

午後11時だ。

今日天気がちょっと悪いけど、雨が好きなんだ。雨が降った時に、ずっとずっと君を思い出す。たぶん、僕の夢で君と会った時にはいつも雨が降っていた。

もう10年でしょう?

時の風は本当に強くてしまう。
でもね、とても楽しくて、うれしかった。

--

11時40分だ。寝た方がいいけど、外で風はつよくてうるさいんです。自分の中で、気持もうるさい。ざんねんね…

俺たちはいつも遠い所に住んでいるね。今は違わない。もしかしたら、僕は君のことな気持が大きいかもしれないと思う。

とにかく、じつは僕は人生のことがぜんぜんわからない。どうしてれを書いているか?知らない。

けどさ、

君が好き。

:)

27 de mai. de 2010

つきのバレエ

月。満月今夜
星の明朗は薄れている
暗闇裏に月は一人で舞う
月、僕と一緒に舞って下さい!