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31 de mar. de 2013

Pascha

Pendurado na cruz
Ele é apenas Um:
Inteiro, completo;
Sem divisões ou partes.
É um, e é três, quatro; 6 bilhões.
É o pastor homofóbico que odeia,
E o casal homosexual que ama;
O monge budista com porrete nas mãos
E o muçulmano ensanguentado caído no chão.
É o adolescente confuso e perdido
Que assassina uma família por medo;
E é o padre que lava e beija os pés desse jovem
Enquanto carrega o peso do mundo das costas.

Pendurado na cruz,
Ele é apenas Um,
Que também é três e bilhões mais:
O monge que se imola no Tibete
E os oficiais chineses que o espancam;
É o político que desvia recursos,
E a doméstica que luta por direitos trabalhistas.
É o mendigo que morre queimado,
E é também o jovem que o mata.

Quem é aquele pendurado na cruz?

É aquele que apenas É;
E é apenas um - completo, inteiro.
É você e sou eu: apenas Um
Do tamanho do Universo.

--

(Switchfoot - Twenty-four)

12 de fev. de 2013

Satori

Manhã ensolarada num velho mosteiro português. Pedro debruça-se no parapeito da janela de sua pequena cela, enquanto alguns fracos raios de Sol pintam no chão escuro um padrão quadriculado. Há quantos meses estaria ali já? Ele, que passara anos estudando Latim, Grego, Hebraico e Aramaico; relendo textos antiquíssimos e memorizando rituais milenares; ele, que sentia claramente o chamado divino para exercer o sagrado ministério de Cristo, sentia-se só.

Pedro sentia-se só. 

Pedro sentia-se só; e não se tratava daquele tipo de solidão que bate quando se está sozinho: era uma solidão maior, mais profunda - daquelas que poucos conheceram. Pedro sabia que o mundo fervilhava a seu redor: ouvia falar de governos e guerras, dos avanços na Medicina, dos milagres da Ciência; conhecia advogados, bancários, artistas e tinha consciência do vasto leque de possíveis caminhos que cada Homem na Terra encontrava frente a si. E, mais ainda, Pedro sabia que, enquanto esse insano mundo girava, ele estava ali - debruçado em sabedorias centenárias e ritos arcaicos; vivendo uma realidade tão diferente daquela que o resto do mundo conhecia que enchia-se de dúvidas e medos (seria ele seria capaz de compreender aos fiéis e guiá-los, mesmo vivendo em um paradigma tão distinto?). Quanta coisa estaria perdendo? Quantos sorrisos? Quantos abraços, quantos amores? Quanta vida?

(Há noites, ajoelhado em seu oratório, Pedro questionava o propósito de seu chamado. Por que ele estaria ali, vivendo voluntariamente isolado de todos, quando poderia ter escolhido uma vida comum,  algum ofício habitual, amigos e - por que não? - alguma garota bonita em sua pequena cidadezinha do interior? Já revirara os evangelhos sinópticos; já estudara as epístolas paulinas, lera Agostinho, Orígenes, Aquino - até Lutero e Calvino! - e não encontrou as respostas que buscava. Decidira então, talvez como último recurso, rezar.) 

Lá fora, no velho carvalho em frente à janela de Pedro, um sabiá começa a cantar. O jovem seminarista observa encantado, por entre as grossas grades de ferro, o pequeno animalzinho. Lágrimas tímidas rolam de seus olhos e marcam sua batina surrada. Pedro, de repente, esquecera o que é que tanto procurava; esquecera todas as perguntas e todas as respostas que esperava encontrar. Levantou-se lentamente com um sorriso (coisa que, suspeitava, seu corpo havia desaprendido), cruzou a cela e ajoelhou em seu oratório. Nunca havia sentido solidão tão plena.

(Sé do Porto. Porto, 21 de dezembro de 2012)

13 de out. de 2012

Quem?

"Once when Jesus was praying alone and his disciples were with him, he asked them:

- Who do the crowds say I am?

They replied:

- Some say John the Baptist; others say Elijah; and still others, that one of the prophets of long ago has come back to life.

- But what about you?, Jesus asked them back, 'Who do you say I am?" (Lk 9:18-20) 



"Who do you say I am?"

19 de mai. de 2010

Sobre o "Sofrimento" (II)

"Mas aos que sofrem, Ele os livra em meio ao sofrimento; em sua aflição Ele lhes fala." (Jó 36:15)
"Disse o Senhor: 'De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo. Por isso, desci para livrá-los das mãos dos egípcios e tirá-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel (...)'" (Ex 3:7-8)

Quando procuramos por sofrimento na Bíblia, nos deparamos com uma vastidão de material para estudar. De fato, se pudéssemos visualizar em imagens e ouvir o Velho Testamento (VT), provavelmente não seria algo muito diferente de rios de sangue e súplicas desesperadas (seria como assistir a um programa de jornalismo policial, talvez?). E note que isso não é exclusividade do VT: o Novo Testamento (NT) está cheio de relatos de sofrimentos e "maus bocados" pelos quais passaram os apóstolos.

Se analisarmos a etimologia das palavras que a Bíblia traduz como "sofrimento", chegaremos à conclusão de que a barra era realmente pesada. A palavra em hebraico traduzida como sofrimento/aflição é עֳנִי (onii), derivada do verbo עָנָה (anah) que - de modo geral - significa "ser oprimido", "ser colocado para baixo"; e tem sua origem relacionada à ação de arar a terra. Como comentei no post anterior, o sofrimento duhkah estava relacionado ao desalinho do eixo; já o sofrimento anah está relacionado à sensação de ser arado. Tenso, né? Dessa forma, num contexto cristão do VT, o sofrimento é algo sensível tanto física quanto espiritualmente. É aflição mesmo, no sentido mais profundo da palavra.

No Novo Testamento, uma das palavras mais encontradas para designar sofrimento é πάθημα (pathema), derivada de πάθος (pathos) - mesma raiz da palavra paixão. Pathema difere de pathos apenas por ser um termo mais concreto e específico. Na Grécia Antiga, pathos tinha uma significância tanto positiva quanto negativa, mas no NT é quase invariavelmente ligado à coisas negativas. Seguem exemplos do pathema:

"Considero que nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada." (Rom 8:18)

"Pois assim como os sofrimentos de Cristo transbordam sobre nós, também por meio de Cristo transborda a nossa consolação" (2Cor 1:5)

"Ao levar muitos filhos à glória, convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o autor da salvação deles." (Heb 2-10)

O pathema grego está, então, intimamente relacionado às emoções. O sofrimento expresso no NT, portanto, tende mais ao sofrimento emocional do que aquele do VT. Isso pode ser compreendido em termos históricos, se considerarmos o contexto em que o povo hebreu surgiu e existiu na época antiga. Era um povo constantemente escravizado, envolvido em batalhas; com uma história banhada a sangue. Sua divindade, portanto, precisava desempenhar um papel guerreiro - era um Deus herói, que ouvia os gritos de dor, que sentia em Si mesmo as aflições físicas do povo-escravo e Se erguia para devastar e destroçar os inimigos.

Na época do Novo Testamento, a cultura judaica estava inserida em um ambiente mais civilizado, e creio que não experimentava tanto derramamento de sangue quanto nos tempos arcaicos. O sofrimento, então, assume uma conotação mais introspectiva: o foco não está nas lamentações do físico, mas do espiritual (não esquecendo aqui, obviamente, da perseguição dos apóstolos da Igreja Primitiva, nem as próprias molestações que Jesus sofreu antes e ao longo da crucificação).

Qual a raiz do sofrimento, para um cristão? Se pensarmos no pathema, poderíamos vislumbrar uma raiz relacionada ao pathos: à paixão, ao apego. Se nos apegamos a algo, se temos um sentimento forte, isso pode nos levar ao sofrimento: sofrimento por não ter aquilo que queremos, e sofrimento por pensar em perder aquele objeto de nossa paixão. Esse tipo de sentimento está intimamente relacionado ao ego. Só há paixão, desejo e apego se há um "eu" para fazer usufruto do objeto do desejo. Nossa própria noção de "eu" se confunde com as coisas que possuímos e às quais nos agarramos: eu sou advogado, eu tenho um carro, eu tenho uma esposa e três filhos, eu tenho uma casa na praia, eu isso, eu aquilo, etc. Quanto mais se tem, mais se tem a perder também e - por consequência - mais sofrimento em potencial. E, também, quanto mais se tem, mais se quer ter, e mais o ego é fortalecido.

Esse conceito de sofrimento devido ao fortalecimento do ego está diretamente relacionado, na teologia Cristã, à separação de Deus. Quando estamos separados de Deus (o que, em última análise, é impossível), nos sentimos vazios e tentamos preencher esse vazio construindo uma imagem de nós mesmos; mas isso nada mais é do que juntar tijolos sobre uma base fraca que invariavelmente vai ceder: quanto mais tijolos, maior o peso a sustentar e, consequentemente, mais estrago fará a queda. Fortalecer o ego é uma armadilha, que não trará nada além de mais sofrimento. Jesus disse (Jo 12:24) "Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto." E, ainda: "Bem aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus" - 'pobres em espírito' concerne exatamente à pobreza espiritual, que é a realização de que não somos suficientes, porém dependentes e responsáveis uns dos outros e uns pelos outros. Daí implica na atitude de ausência de sentimento de posse, de apego, diante de todas as coisas. Isso é morrer.

Paulo também afirma (Rom 8:13) que "se [vocês], pelo Espírito, fizerem morrer os atos do corpo, viverão." Portanto, é necessário morrer para viver; é necessário morrer para ter comunhão com Deus, em sua plenitude.

Matar o ego: esse é o caminho ensinado por Jesus para das cabo ao sofrimento. É matando o ego que se permite o nascimento do Espírito, que é o amor. O amor incondicional e universal de Deus. E é esse amor que move a vida, e nos faz, verdadeiramente, habitar o Reino dos Céus. :)