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9 de mai. de 2020

Verena

In the first verses of the Dhammapada, the Buddha's disciples state what are maybe his most famous verses: "Hatred does not cease by hatred at any time; but only by non-hatred: this is the eternal rule".

We are now living through possibly the hardest period mankind as a whole has experienced since the World War II. A period that might define the years 2020 for centuries to come – unless something even harsher comes at its wake. The Coronavirus pandemic unravelled, like the Pandora Box myth, many shades of emotions that were dormant for years: from compassionate actions by financial hawks to unbelievable displays of contempt for fellow grieving citizens by popular figures. 

Now, this should be a time of union, and in many senses it is: never have so many people stayed locked in their homes at the same time; and never has the global economy been halted for so long. Such is the power of compassion, empathy, and sense of survival. Staying home – experts tell us and experience shows – is the only means we have at this moment to save lives.

Nevertheless, while most of the world is collectively mourning the victims of this plague under a (very important at such times) leadership usually empathetic to the situation of their people, Brazilians are being showered with a constellation of the most insane lunacies from the man whose job was to lead us through this as smoothly as possible. I do not know what agenda lies under this erratic behaviour – though, given the frequency of my posts, I might have an answer in the next entry –, but it is certainly shattering the solidarity that binds our people together. A country widely known for its joyful spirit – a sunshine that many times helped warming up the gloomy seriousness of the Old World – is being showcased internationally as the epicenter of paranoia, negacionism and nationalism. Internally, we, the messengers of samba and happiness, are transforming into the pall-bearers of hate. People who were always kind and generous are now offending others without hesitation: even my grandmother recently wished in a Facebook post that our President would soon go down and meet the Devil in person. I (very) often catch myself counting my breath after reading the news these days, and cannot resist lowering my vocabulary when commenting on them. 

I do not know exactly when all this started, but the recent upheaval in our politics (which culminated in an impeached president) and the ocean of corruption unveiled by then played a central role in that. It is impressive to witness the emotional power of corruption; how it is able to evoke strong responses and stir people up. Narratives also played a major role there, of course: in the blink of an eye, the whole political left became the culprits of the money-laundering scandals and the targets of a tsunami of hate — even though most beneficiaries of the unfolded schemes were old politicians from centre-right parties and big sharks of the construction industry. Eventually, this hatred gained momentum and led to the election of our current president.

Anyway, the rift has been deepening ever since he came to power (January 2019), but it feels like this separation is becoming an insurmountable abyss at an exponential rate recently. Maybe the social isolation is playing a role here: staying at home is psychologically challenging, and it contributes to pushing us deeper and deeper into our own bubbles. As a consequence, bubbles grow larger and move further from each other, and conflicts are strengthened. However, none of this needed to happen now: this should be a time of union! Most leaders have seized this moment to unite their countries and heal old wounds. Our President, instead, keeps sending controversial and hateful messages every single week since the start of the outbreak around here. And, with every single message, a wave of supporters descend to carry around his poison all over the internet. People horrified at his out-worldily remarks become understandably angry, and eventually lash out at his supporters; who then move ahead to defend him furiously. There seems to be no common values shared among them anymore. This, like a huge bowl of fresh dough waiting to be baked, hatred keeps on inflating.

Society is bound together by solidarity: in its absence, we move towards an unruly world – a state of anomie. Hatred, often fomented by misinformation and distrust, is a key ingredient to fuel an anomic state, where society cannot find common values and live in harmony. It seems crystal clear that we are moving in that direction, but where is the limit? Where is (or was?) the point of no return?

"Hatred does not cease by hatred at any time; but only by non-hatred: this is the eternal rule."
This has never been so relevant; and yet, so hard to practise. We could all benefit from some effort here.

#StayHomeStaySafe
🙏

1 de abr. de 2014

31 de mar. de 2014

Fins

Novas estações e novas faces,
Mais um começo do ciclo sem fim.
Um novo capítulo de um novo tomo
No mesmo livro de folhas em branco,
Vazias como as flores de cerejeira,
Que renascem as árvores mortas
Ao abraço morno do Sol vernal,
Como paixões que despedaçam
Corações empedrados em longos invernos
Ao esbarrar o Amor, por acaso,
Num tropeço de uma caminhada sem rumo.

E as flores desabrocham e caem;
As folhas em branco são escritas,
E todo livro recebe seu último verso.
Mas a árvore se lembra de cada broto,
Conhece o cheiro de cada pétala;
O escritor conhece cada capítulo,
E cada beijo de cada personagem
(Mesmo os jamais realizados.)
Novas estações e novas faces,
Só mais um começo do ciclo sem fim.
Mas o coração, esse nunca esquece.

23 de mar. de 2014

Os Primeiros Esplendores


"A splendid branch issues from the old plum tree;
At the same time, obstructing thorns flourish everywhere."
(Keizan Jokin)*

~~

Das quatro estações do ano, a Primavera é possivelmente a mais feliz. Para nós, brasileiros, as estações podem ir e vir sem nem percebermos - exceto, talvez, quando começa e quando termina o Verão e precisamos adiantar ou atrasar nossos relógios em uma hora. Na maioria do hemisfério norte, contudo, os Invernos têm neve, as Primaveras têm flores, os Verões têm calor insuportável e os Outonos têm ruas abarrotadas de folhas secas.

Em Tokyo, o frio começa em meados de novembro; e pela primeira semana de dezembro, os termômetros já começam a descer abaixo dos 10 ºC. De dezembro até começo de abril, sair pra fora de casa sem casaco é masoquismo, já que as temperaturas flutuam do subzero aos 15, 16 ºC (max) em dias excepcionalmente quentes. Ou seja, passamos cerca de 1/3 do ano enrolados em roupas de frio e sob aquecedores: dá pra imaginar o quão prazeroso é sair para dar uma volta de camiseta, curtir um vento morno e ver as árvores saindo do seu estado hibernal e começando a florir.

Ciclo dos 24 termos solares asiáticos
Anteontem (dia 21 de março), celebrou-se aqui no Japão o "Dia da Primavera" (春分の日, shunbun no hi), um feriado nacional. Ele coincide com o que chamamos de equinócio de primavera (ou vernal) no Ocidente. A palavra equinócio deriva do latim aequinoctium, formada pela aglutinação de aequus (igual) e noctium (de noites), sugerindo o dia em que o número de horas do período diurno é equivalente ao número de horas do período noturno. No calendário ocidental, a primavera começa a partir do dia de equinócio vernal; mas aqui no Japão começa um pouco antes. O calendário tradicional do leste asiático é divido em 24 "termos solares", que marcam as principais mudanças na natureza. O primeiro evento do ano é o risshun (ou lichun, em mandarim), 立春, que significa a entrada da Primavera, e geralmente ocorre pelos primeiros dias de fevereiro, bem próximo do ano novo lunar/Chinês. Este evento é astronomicamente definido a partir do dia em que a longitude solar [1] atinge 315º (o equinócio vernal ocorre quando sua longitude atinge 0º), o que em 2014, por exemplo, ocorreu no dia 4 de fevereiro. Tradicionalmente, simboliza o meio do caminho entre o solstício de inverno e o equinócio vernal e representa o dia mais frio do ano: dali pra frente as temperaturas começam a subir gradualmente, conforme a primavera vai se desenrolando. O período que chamamos de primavera compreende, neste calendário asiático, os primeiros 6 pontos, viz. 立春 (entrada da primavera), 雨水 (água das chuvas [2]), 啓蟄 (acordar dos insetos [3]), 春分 (equinócio vernal), 清明 (clareza e brilho [4]), 穀雨 (chuva dos grãos [5]) e termina na véspera do rikka, 立夏, a entrada do Verão (6 de maio).


Já que falamos em Ásia, o ideograma usado por aqui para denotar a primavera, 春 (haru em japonês, chūn em mandarim), é formado por composição semântico-fonética, do seguinte modo: a forma atual é uma simplificação de 萅, que contém o radical 艸 (grama, folhagem) em cima ( 艹 ) e 日(sol) embaixo e o indicador fonético 屯 (lido zhun em mandarim, e que também significa agrupar, juntar) no meio. Portanto, é um ideograma que sugere o nascimento das folhagens e o ressurgimento do Sol.

Já para nós, que falamos o bom e velho Português, nossa "Primavera" tem uma origem não menos interessante e curiosa! No Latim clássico, as quatro estações eram: veraestās, auctumnus e hibernum. Em Português antigo, essa divisão dera origem às estações como Verão (nossa atual Primavera), Estio (nosso atual Verão), seguidos do Outono e o Inverno. Este trecho de uma das cartas de Gil Vicente [6] ilustra a separação entre Verão e Estio:

"(...) E para que melhor sintam suas pacíficas concordâncias,
todos os movimentos que neste orbe criou,
e os efeitos deles são litigiosos,
e porque não quis que nenhuma cousa tivesse perfeita duração sobre a face da terra,
estabeleceu na ordem do mundo que umas cousas dessem fim às outras,
e que todo o género de cousa tivesse seu contrário,
como vemos que contra a formosura do Verão, 
o fogo do Estio, 
e contra a vaidade humana a esperança da morte,
e contra o formoso parecer as pragas da enfermidade,
e contra a força a velhice,
e contra a privança inveja,
e contra a riqueza, fortuna;
e contra a firmeza dos fortes e altos arvoredos,
a tempestade dos ventos;
fortuna, sorte, azar
e contra os formosos templos e sumptuosos edifícios,
o tremor da terra,
que por muitas vezes em diversas partes tem posto por terra muitos edifícios e cidades,
e por serem acontecimentos que procedem da natureza não foram escritos,
como escreveram todos aqueles que foram por milagre,
como templum pacis de Roma,
que caiu todo subitamente no ponto que a virgem nossa Senhora pariu."   

Pois como foi que o Verão virou Primavera e o Estio virou Verão? Na Roma antiga, o ano começava no mês de março (antes da reforma do calendário em 45 a.C. por Júlio César), junto com a Primavera. Talvez para destacar a celebração da renovação da vida, os primeiros dias da estação eram conhecidos como prīma vera (do plural neutro acusativo de prīmus + ver). Aparentemente, essa nomenclatura acabou sendo adotada ao longo das regiões do vasto império romano e absorvida pelos idiomas derivados do latim. De fato, o termo em Francês reflete esse aspecto de primazia dessa estação, ao chamá-la de printemps, a primeira época. No Português do século XVI, por exemplo, as estações eram Primavera, Verão, Estio, Outono e Inverno, sendo as duas primeiras partes do que hoje reconhecemos como Primavera. O vocábulo latino para primavera, ver, por sua vez, parece ter a mesma raiz do prefixo sânscrito vas-, significando resplandecer, brilhar [7],[8], e há os que digam que é a mesma raíz de verde. Portanto, a Primavera seria a estação dos primeiros esplendores da Natureza; quando ela começa a despertar do estado de hibernação (hibernum) e esbanjar um verde novo, em todo seu esplendor.


  


--
* "Um ramo esplêndido surge da velha ameixeira;
Ao mesmo tempo, espinhos florescem por todo lugar."

Verso composto pelo mestre Keizan ao lecionar sobre a vida do buda Shakyamuni. O nascimento de Shakyamuni é celebrado em 8 de abril, e coincide com o ápice da Primavera. In: Keizan. The record of transmitting the light [Denkoroku], 1300. Trad. de Francis Cook. Wisdom Publications: Boston, 2003. pg. 31.
[1] Vide explicação neste link

[2] Indica a época do ano em que o que chove é água, e não mais neve; e que a neve pode então começar a derreter.

[3] Com o aquecimento da terra, os insetos começam a sair do estado de hibernação.

[4] A Natureza desperta com força, brilho e clareza. É a época em que as flores estão no ápice do florescer, o momento ideal pro hanami.

[5] Os campos de plantação são preparados, e as chuvas de primavera caem para nutrí-los.

[6] Carta que Gil Vicente mandou de Santarém a el-rei dom João, o terceiro do nome, estando sua alteza em Palmela, sobre o tremor da terra que foi a 26 de Janeiro de 1531. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[7] Entrada de "Primavera", Dizionario Etimologico Online. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[8] Sir Monier Monier-Williams. A Sanskrit-English dictionary etymologically and philologically arranged with special reference to cognate Indo-European languages, Oxford: Clarendon Press, 1898, page 930. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014. 

19 de mar. de 2014

κόσμος

(Via Lactea, vista da Terra)

"Verily at the first Chaos came to be, but next wide-bosomed Earth, the ever-sure foundations of all the deathless ones who hold the peaks of snowy Olympus, and dim Tartarus in the depth of the wide-pathed Earth, and Eros (Love), fairest among the deathless gods, who unnerves the limbs and overcomes the mind and wise counsels of all gods and all men within them. From Chaos came forth Erebus and black Night; but of Night were born Aether and Day, whom she conceived and bare from union in love with Erebus. And Earth first bare starry Heaven, equal to herself, to cover her on every side, and to be an ever-sure abiding-place for the blessed gods. And she brought forth long Hills, graceful haunts of the goddess-Nymphs who dwell amongst the glens of the hills. She bare also the fruitless deep with his raging swell, Pontus, without sweet union of love. But afterwards she lay with Heaven and bare deep-swirling Oceanus, Coeus and Crius and Hyperion and Iapetus, Theia and Rhea, Themis and Mnemosyne and gold-crowned Phoebe and lovely Tethys. After them was born Cronos the wily, youngest and most terrible of her children, and he hated his lusty sire." (Hesíodo) [1]

--

E eis que foi o Caos,
naquilo que ainda não Era.
E, num infinitésimo de segundo,

do Caos fez-se o Cosmos:
fez-se a Ordem majestática,
o fino Equilíbrio entre o Tudo e o Nada.

E foram os primeiros passos, violentos,
do ballet da nova Vida:
O tango compassado dos quarks,
grudando-se como casais em fogo,
devidamente unidos e sacramentados
pelas excêntricas Partículas de Deus.


E pôde o Universo então comungar
e os Deuses puderam surgir,
como movimentos de uma sinfonia

executada por uma orquestra auto-conduzida,
deliciando-se em cada pequena nota,
gozando cada um dos Versos (de muitos versos)

E na Ordem surgiu a Luz,
que viaja, tal caixeiro errante,

por mundos que ainda não São
e por mundos que já Foram,
levando memórias de uma Eternidade
Que jamais compreenderemos.


Pouco a pouco o tango virou bossa
e aos acordes menores da balada doce,
o Verso desabrochou em romance fervente:

quarks e léptons se entrelaçavam,
e a Vida explodia em novas formas,
Bailando e girando, e vibrando e brilhando.

E a bossa virou samba:
as novas Criaturas uniam-se, em êxtase,
em grandes enxames de poeira cósmica
cada qual sambando seu próprio enredo.
Dessa celebração da vida, nasciam,
ejaculadas do seio de Hera, as galáxias.


E desse Carnaval cósmico
nasceram os foliões, os cruzados da Luz
a iluminar e aquecer aquela escuridão fria;
Nasceram as estrelas, e, de sua poeira,

surgiram planetas, asteroides,
e tudo mais de opaco que perambula os Céus.

Surgiram hidrogênio, hélio,
lítio, carbono, ferro, e toda sorte de matéria:
Do fogo ensandecido daqueles foliões,
formou-se cada pedacinho ínfimo,

cada pequena parte que constitui
do grosso vulcão à delicada rosa.

Como respingos do fértil seio de Hera,
desenvolveu-se o Verso, em toda sua riqueza;
do sorriso singelo de um bebê
à ferocidade de uma supernova em exaustão,
somos todos parte de um eterno infinito;
de um eterno infinito que é parte de nós.

--
[1] Hesíodo. Theogonia. Tradução de Hugh G. Evelyn-White (1914). ll. 116-138. Disponível em: http://www.sacred-texts.com/cla/hesiod/theogony.htm. Acessado em 16 de março de 2014. (100 anos!)

1 de mar. de 2014

Bianco

Em branco,
Passaram-se aqueles dias;
E aquelas semanas também
Em branco passaram.
No branco dos dias nublados,
Com seu peso escuro,
E sua radiância ofuscante;
No branco da neve acumulada,
Afofada por pés despreocupados,
Indiferentes àquela beleza rara
Apressados em achar abrigo
E aquecerem-se da Natureza.
Passaram no branco do gohan:
Recém cozido e quente, fumegando
Na branca porcelana made in China.
E na brancura do leite,
Prestes a ser macchiato
Num acalentador cappuccino.
Em branco,
Passaram-se estes últimos dias,
E estas últimas semanas.
Passou o último Inverno.

11 de nov. de 2013

Dançando

(Folhagem de Outono. Korea University, Seoul, Novembro 2012.)

--

E chegou mais um Outono aqui no hemisfério norte. As árvores vão aos poucos perdendo suas folhas e "morrendo", para renascer novamente na próxima primavera. Há mais anos do que possa imaginar nossa limitada percepção, a Vida começou (ou recomeçou?) seu baile sem fim. Como as árvores, que começam a primavera numa profusão de cores e energia, assim - diz-se - começou o grande Universo: em uma explosão intensa, que deu origem a absolutamente tudo que conhecemos. No princípio, havia apenas energia que, em tempos infinitesimais, foi morfando-se em massa: quarks, léptons, bósons, múons, glúons e outras partículas sub-atômicas. Essas, por sua vez, uniram-se formando prótons e nêutrons que, ao juntarem-se com os elétrons, formaram os cento e tantos tipos diferentes de átomos que compõem desde o núcleo das estrelas até a meleca grudada no seu nariz e os componentes da tela do seu dispositivo favorito.

Os mais entusiastas dizem que somos "poeira das estrelas" - o que, aliás, virou um dos bordões favoritos dos cientistas e humanistas ao redor do mundo - mas, na verdade, somos muito, mas muito mais que isso. Há milhares de anos, as grandes tradições espirituais que surgiam na Índia versavam sobre renascimentos e a universalidade do mundo: diziam que somos todos parte de uma coisa só, e que renascíamos continuamente, morte após a morte; visão que sobrevive nas tradições derivadas das antigas filosofias hindus (Hinduísmo, Jainismo e Budismo). Já no Ocidente, contudo, prevaleceu a visão egípcia de que "algo" sobrevive à morte, e passa para um outro plano de existência, onde irá experimentar ou as glórias de um Paraíso, ou os martírios de um Inferno. Para sempre. Embora a ideia de renascimento existisse no Judaísmo, ela se perdeu no Cristianismo e no Islã (ainda que hajam grupos minoritários que vivam essa filosofia), talvez pela influência da religião greco-romana, que evoluiu visão similar à dos egípcios. De qualquer forma, independentemente da corrente ideológica, o que quer que se passe após a morte são meras suposições. Certo?

Observar a Natureza é a missão da Ciência: se sabemos prever um eclipse, é porque soubemos analisar - pacientemente - o movimento dos astros, compreender a relação entre eles e identificar padrões. Da mesma forma, a observação do comportamento dos materiais e das interações destes levou ao desenvolvimento da Física e da Química que, ultimamente, tornou possível a eletricidade e nossa era digital. Não fosse pelas cautelosas investigações de homens e mulheres dedicados à compreender o Universo, nada disso existiria hoje em dia. A ciência nos ensina que, se queremos descobrir algo, devemos observar contínua e imparcialmente a Natureza. Assim conseguimos explicar como que, de estrelas, viramos homens. Sabemos, portanto, explicar o passado. Sabemos como surge o corpo humano, sabemos como ele adquire consciência, por que não poderíamos explicar o que acontece depois?

Morremos a cada instante. Nossas células param de funcionar e morrem (ou seja, não conseguem mais manter-se e interagir com as vizinhanças). Isso acontece na pele, nos músculos, nos órgãos e, claro, no cérebro. Mas o que acontece com essas células? Elas não desaparecem, afinal a natureza nos ensinou a lei básica de que nada no universo aparece ou desaparece. De fato, as células mortas são eliminadas do nosso corpo, ou por vias de excreção ou, no caso da pele e dos cabelos, por forças mecânicas. Essas células serão então alimento de outros seres vivos, que farão uso da energia acumulada nas estruturas químicas ainda existentes ali para crescerem, se multiplicarem e darem sequência à cadeia da vida. Da mesma forma, nós humanos consumimos a matéria orgânica de outros seres para renovar nosso estoque de células, fazendo então com que estes seres transformem-se em parte constituinte do nosso corpo. O mesmo acontece com a água que bebemos, e com a energia que utilizamos para pensar, sentir, nos movimentar e articular nossos pensamentos. Seja a matéria que compõe nosso organismo ou a energia que faz o organismo funcionar, elas se originam da vida que existe espalhada no planeta. Portanto, não somos apenas poeira das estrelas, como somos as estrelas, e os oceanos, e os rios, e as florestas, e os animais, e todos os bilhões de seres humanos desse planeta. Podemos nos reconhecer como um ente separado dos demais, mas isso se dá no nosso nível de visão. Se analisarmos num microscópio potente o suficiente, não seremos capaz de identificar a separação entre meus dedos e as teclas do teclado, por exemplo; assim como se olharmos a partir de uma sonda espacial, não enxergaremos a separação entre os países, e veremos apenas "um pálido ponto azul" no meio da escuridão, como expressou Carl Sagan ao ver uma fotografia da Terra tirada pela sonda espacial Voyager 1 em 1990 após sair do sistema solar, a 6 bilhões de quilômetros de distância daqui. Nessa distância, não há distinção entre nada: somos todos um pequeno e opaco ponto perdido no meio da imensidão. Que sentido faz discutir filosofia ou política?

(Pale Blue Dot, 1990. Copyrights da NASA.)

Analisando por essa perspectiva, nós nunca nascemos e nunca morreremos. Como Krishna diz a Arjuna, no Bhagavad Gita [1]: "Nunca houve momento em que eu não existi, ou você, ou todos esses reis; assim como, no futuro, nenhum de nós cessará de existir." Olhando esse aspecto, o renascimento é algo real, tangível e plenamente lógico.

Porém há quem diga que não somos apenas corpo: "je pense, donc je suis" enunciou Descartes. Nossa qualidade intelectual nos induz a acreditar que nossa existência não está limitada ao aspecto físico, e que nossa persona é constituída por mais do que um apanhado de células e pulsos elétricos. Nosso eu é, então, uma entidade particular, distinta e única, cujo conjunto de memórias, experiências e concepções constrói as regras de interação com as outras entidades particulares ao nosso redor. Essa experiência pessoal de existência leva muitos a concluírem a existência de um ente pessoal, coexistindo com e "conscientizando" o corpo, uma alma. E, como todos os conceitos filosóficos, existem várias visões diferentes sobre o que seria a alma e como se daria essa interação alma-corpo. Na visão de Platão e Sócrates, a alma seria a essência do ser, aquilo que decide como ele deve agir; e seria incorpórea e renasceria em outros corpos após a morte do corpo recipiente. É mais ou menos a linha que segue Aristóteles - que não crê em renascimentos, mas sim na imortalidade da alma - e, na sequência de Aristóteles, Agostinho e os grandes pensadores cristãos. Quando se fala em alma, a propriedade que prevalece é que ela sobrevive à morte e passa a uma outra existência - seja aqui, no plano físico; ou num outro plano "espiritual". A mim, pessoalmente, não apetecem nenhuma das duas ideias: tanto o transladar das almas de um corpo a outro, quanto a ida a um céu ou um inferno me soam muito simplistas e individualistas, duas coisas que não condizem com o modus operandus da Natureza. Contudo, eu consigo entender os argumentos de quem enxerga a realidade desse modo. 

Na minha percepção, a continuidade (o renascimento) do intelecto (da alma?) se dá de forma muito mais abrangente e elegante. O intelecto renasce através das ações. Nossas ações são o veículo pelo qual interagimos e impactamos o mundo. Na medida em que minhas ações contribuem para transformar o modo como outras pessoas agem, eu estou renascendo através das ações dessas pessoas; da mesma forma, as ações que eu sofro interferem no modo como eu ajo e, portanto, um novo "eu" - produto das ações sofridas - nasce a cada instante. A ciência é um exemplo clássico desse processo, como bem colocou Sir Isaac Newton: "se vi mais adiante, foi por estar sobre os ombros de gigantes". Um determinado campo do conhecimento é como uma grande vida, que vai sendo construída através das ações consecutivas de gerações e gerações de pesquisadores. E assim é também o comportamento coletivo: vamos sendo moldados pelas ações que consumimos, da mesma forma que nossos corpos vão sendo construídos pelo consumo de matéria. O renascimento é algo que acontece então tanto a nível material quanto a nível intelectual. E nesse ciclo segue a dança da Vida: iniciada num começo sem começo, e sem perspectiva de terminar.

(A rede de Indra fornece uma explicação interessante para o modo de enxergar a relação entre cada ser e o resto do universo. "Imagine uma teia de aranha multidimensional, coberta de pequenas gotículas de orvalho. E cada gota contém um reflexo de todas as outras gotas. E, em cada gota refletida, vê-se o reflexo das outras gotas, e assim por diante, ad infinitum." [2])

Nós, que somos literalmente todo o universo, temos toda a responsabilidade do mundo em nossas mãos. E toda a liberdade de fazer o que quisermos com ela. Só resta escolher qual ritmo queremos fazer nossos futuros eus dançarem. 

--
[1] Bhagavad Gita, 2:12
[2] Watts, Alan. "Alan Watts Podcast – Following the Middle Way #3". Disponível em: alanwattspodcast.com

3 de nov. de 2013

White Tyger

O mighty Tyger,
Guardian of the West Sky,
Let me be thy humble rider
For a brief score of time;
Grant me that I may follow Thee
Throughout thy scouting rounds,
Over countless galaxies,
Where Life and Love abound.

O, great Tyger:
Quickly! Seize me into thy Whiteness:
Though I be but a poet minor,
I vow to clash for thy Quest.
And, together, we shall fix this mess:
Subjugate demons and vipers;
Angels and Gods (the great dividers).

Thus could we set the world free,
Where Men would be their own;

Where Love, like a vast sea,
Would flood every single home,
With no border of faith or creed:
A World where only Peace is enthroned.

O, mighty Guardian!
Let me dream, let me dream!
Let me hunt, like thy kin Orion,
All my utopias and schemes;

Help me, Tyger: carry me on!
I need your brave scream, your mighty roar,
To frighten and empower my trembling soul.

O Tyger, mighty Tyger.
How many ages have Thee witnessed so far?
How many pitiful poets and wandering fighters;
Beggars and kings; sinners and saints, virtuous and liars:
All but insignificant little nothings, wailing at thee in awe.


Thy Stars are gazed upon since time afar,
And yet, Thou too art nowhere to be found.


--

(Orion Nebula. Photo by Hubble telescope. All credits belong to NASA and ESA. The Orion belt (middle left) together with Betelgeuse, Bellatrix, Saiph and Rigel stars, make up the so called "3rd Palace" of Chinese astronomy, within the huge White Tiger group of constellations. For more information on the photo: http://www.astronet.ru/db/xware/msg/apod/2006-01-20)


25 de out. de 2013

Abre tuas asas,
E voa longe, longe;
O mais alto que puder:
O mundo inteiro brilha apenas para ti
E se abre a teus pés.
Basta ter a coragem de pular.



Dusk

Sheep cloudlets,
Floating fierily through the empty sky:
May they carry on my love,
And reach you 
By sunrise


25 de ago. de 2013

Restlessly

Restlessly
Looking for you
In the silence of a starless night
To the bitter cry of the cicadas
And the shine of the moonlight
I look for you
Where no one else does
And where everyone finds
Restlessly
Anxiously
Silently


18 de abr. de 2013

Crescente

Tonight the Moon reaches the first quarter.
How many times has this happened before?
I wonder what things shall pass
Until this endless cycle come to an end.
I guess that's what life's about after all:
Aren't we all waxing and waning all the time?
And the Full Moon is just part of the journey (not its end),
As beautiful, unique, happy and sad
As any crescent or gibbous stages;
Or even the dark New Moon nights.
Every step and every phase are just
Beginnings and ends by themselves:
That's the endless journey of Life.
(And it's Wonderful.)

8 de abr. de 2013

Flowers

Washing you - washing me;
Letting everything be washed away to the very last drop,
So that all that remains
Is the pure, complete, atomic reality:
The only true Buddha.




4 de abr. de 2013

Tudo à sua espera

Poema do poeta inglês David Whyte, intitulado "Tudo à sua espera". Parte do livro de mesmo nome.
(Tradução livre)

Seu maior erro é atuar nessa peça
como se estivesse sozinho. Como se a vida
fosse um crime perfeito em progresso,
sem testemunhas de cada pequeno detalhe.
Sentir-se abandonado é negar a intimidade
com nossas vizinhanças. Por certo mesmo você,
às vezes, já sentiu a grande platéia;
sua presença inflada e suas vozes em coro,
sufocando sua voz solitária.
Você deve perceber o modo como o detergente
te dá poderes especiais, ou como
o trinco na janela te oferece liberdade.
Atenção é a disciplina oculta da familiaridade.
As escadas são suas conselheiras quanto às coisas que virão,
e as portas sempre estiveram ali para te assustar,
e para te convidar. O pequeno speaker do telefone
é a porta dos seus sonhos para a divindade.
Coloque de lado o peso de sua solidão
e relaxe na conversa. A chaleira está cantando,
mesmo enquanto te serve um chá; e as panelas
já deixaram de lado sua indiferença arrogante e
finalmente viram o bom em você. Todos os pássaros
e criaturas do mundo são indizivelmente
elas mesmas. Tudo está à sua espera.

--

Original (available here):

Your great mistake is to act the drama
as if you were alone. As if life
were a progressive and cunning crime
with no witness to the tiny hidden
transgressions. To feel abandoned is to deny
the intimacy of your surroundings. Surely,
even you, at times, have felt the grand array;
the swelling presence, and the chorus, crowding
out your solo voice You must note
the way the soap dish enables you,
or the window latch grants you freedom.
Alertness is the hidden discipline of familiarity.
The stairs are your mentor of things
to come, the doors have always been there
to frighten you and invite you,
and the tiny speaker in the phone
is your dream-ladder to divinity.
Put down the weight of your aloneness and ease into
the conversation. The kettle is singing
even as it pours you a drink, the cooking pots
have left their arrogant aloofness and
seen the good in you at last. All the birds
and creatures of the world are unutterably
themselves. Everything is waiting for you.

This poem showed up in this Easter's dharma talk themed "What gets us in conflict," by the meditation teacher Daniel Bowling at the Insight Meditation Center. Available in this link.

31 de mar. de 2013

Le Soleil

Isn't it magical?
N'importe pas combien de langues nous parlons,
No matter how many technologies we have:
Somehow nothing brings you closer to me than the Sun.
Isn't it incredible that,
No matter how far we are,
There are these precise little moments
Where we can both share the same view?
Where we can both look at each other,
Through this great huge fireball?
Ah, Nature!

Pascha

Pendurado na cruz
Ele é apenas Um:
Inteiro, completo;
Sem divisões ou partes.
É um, e é três, quatro; 6 bilhões.
É o pastor homofóbico que odeia,
E o casal homosexual que ama;
O monge budista com porrete nas mãos
E o muçulmano ensanguentado caído no chão.
É o adolescente confuso e perdido
Que assassina uma família por medo;
E é o padre que lava e beija os pés desse jovem
Enquanto carrega o peso do mundo das costas.

Pendurado na cruz,
Ele é apenas Um,
Que também é três e bilhões mais:
O monge que se imola no Tibete
E os oficiais chineses que o espancam;
É o político que desvia recursos,
E a doméstica que luta por direitos trabalhistas.
É o mendigo que morre queimado,
E é também o jovem que o mata.

Quem é aquele pendurado na cruz?

É aquele que apenas É;
E é apenas um - completo, inteiro.
É você e sou eu: apenas Um
Do tamanho do Universo.

--

(Switchfoot - Twenty-four)

24 de mar. de 2013

Sappho



Terminei esses dias de ler uma coletânea de fragmentos de poemas de Sappho, poetisa grega do século VI a.C. Gostei tanto que resolvi registrar alguns trechos aqui (obrigado ao Project Gutenberg por disponibilizar o livro de graça, e pela excelente tradução do poeta Bliss Carman!). Enjoy!


Que hajam guirlandas, Dica,
Em teus adorados cabelos;
E delicados raminhos em flor,
Tecidos por tuas mãos macias.

Pois aquele que é coroado por flores
Goza do favor dos deuses,
Que não têm bons olhos
Para os não-adornados.


--

Cresce uma nespereira
Na frente da casa do meu amor.
Lá, ao longo do dia,
O vento faz um som agradável.

E quando chega o entardecer,
Sentamo-nos juntos ao crepúsculo,
E observamos as estrelas
Aparecendo no azul silencioso.


--

Houve um tempo em que repousavas em meu colo,
Enquanto o longínguo luar prateado
Percorria pelas planícies, com aquela paixão pura
Toda tua.

Agora, a Lua se foi. As Plêiades
Já passaram, e a escuridão da noite se vai;
Escorrem as horas, e em meu leito
Encontro-me só. 


--

Ah, o que sou eu senão uma tormenta:
Obstinada, impetuosa, quebrada,
Como o clamor das águas esbravejado
No desfiladeiro azul?

Ah, e o que és tu senão uma fronde de samambaia,
Molhada pelo respingar do rio:
Timida, adorável, frágil,
Escondida na reentrância do rochedo?

Contudo, não somos por um breve dia,
Enquanto o Sol dorme na montanha,
Selvagens, amante e amado,
Seguros nos braços de Pan?


--

Amor, deixa o vento gritar
Na montanha negra,
Dobrando os freixos
E as cicutas altas;
Com a voz estrondante
De legiões trovejantes,
O quanto te adoro.

Deixa que a rouca torrente
Do desfiladeiro azul,
Murmurando ferozmente
Da cinza névoa
Do caos primordial,
Jamais cesse de proclamar
O quanto te adoro.

Deixa que o longo ritmo
Das vagas espumantes,
Quebrando e rugindo
No branco litoral,
Titânicas e incansáveis,
Conte, enquanto o mundo sobreviver,
O quanto te adoro.

Amor, deixa que o chamado claro
Do grilo silvestre,
A mais frágil das criaturas,
Verde como a grama jovem,
Marque com seu trilo
Ressonante tom agudo,
O quanto te adoro

Deixa que o alegre canto da cotovia
Pela campina,
Aquela doce lírica
De prata derretida,
Seja como um sinal
Para os mortais que a ouvirem
Do quanto te adoro.

Mas, mais do que todos os sons;
Mais certo, mais sereno,
Mais cheio de paixão
E exultação;
Deixa que o sussurro apressado
Em teu próprio coração confesse
O quando eu te adoro.


--

"Quem foi Atthis?" - homens perguntarão,
Quando o mundo for velho, e o tempo
Tiver cumprido sem pressa
O estranho destino dos Homens.

Porventura, naquela era longinqua,
Alguém há de encontrar essas canções prateadas
Com sua carga humana, e descobrir
Que bela amante Sappho foi!


--

Será que os homens se lembrarão de nós
Nos dias que estão por vir;
De tua adorável beleza
E do meu amor por ti?

Tu, o jacinto que cresce
Por um rio de águas calmas;
Eu, o reflexo aqueluzente
E o clarão disforme.


--

Ninguém falará de Sappho;
De seus amores,
E do amor que ela lhes deu:
Alegrias, dias e beleza;
Sonatas de flauta e rosas,
Canções e vinho e gargalhadas.

Será que ninguém, ao contemplar, dirá:

"E contudo, mesmo com todas as rosas,
E todas as flautas e amores;
Não tenha dúvidas que ela sentia-se só.
Só como o mar, cuja cadência
Assombra o mundo desde sempre."

--

Como um lírio vermelho nos gramados da campina,
Embalado pelo vento e queimando à luz do Sol,
Eu vi a ti, onde a cidade se engasga com o tráfego,
Sustentando entre os transeúntes tua beleza,
Imaculada, selvagem e delicada como uma flor.


--

Veja, onde os brancos
Garanhões de Poseidon
Calcam com truculência
A costa flutuante!

Mais velha que Saturno,
Mais velha que Réia;
Aquela canção lúgubre
De cheias e vazantes,
Num amplo ritmo
Incessante, eterno
Continua marcando o tempo
De tudo que é mortal.

Quantos amantes
Não foram por ela ninados,
Embalados ao descanso
Com as flores maduras.
Antes por nosso prazer,
Esse dourado Verão
Caminhava pelos milharais
Em gracioso esplendor!

Quantos amantes
Não serão chamados por ela,
Nos longos dias de Primavera
Com o passar das eras,
Quando todos os nossos devaneios
Forem esquecidos,
E não houver mais lembranças
Sequer da tua beleza!

Eles também adormecerão
Em lugares quietos,
E hão de ser surpreendidos
Pelos poderosos sons do mar.

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English source:


X
Let there be garlands, Dica,
Around thy lovely hair.

And supple sprays of blossom
Twined by thy soft hands.

Whoso is crowned with flowers
Has favour with the gods,
Who have no kindly eyes
For the ungarlanded.


XIX
There is a medlar-tree
Growing in front of my lover's house,
And there all day
The wind makes a pleasant sound.

And when the evening comes,
We sit there together in the dusk,
And watch the stars
Appear in the quiet blue.


XXII
Once you lay upon my bosom,
While the long blue-silver moonlight
Walked the plain, with that pure passion
All your own.

Now the moon is gone, the Pleiads
Gone, the dead of the night is going;
Slips the hour, and on my bed
I lie alone.


XXIX
Ah, what am I but a torrent,
Headstrong, impetuous, broken,
Like the spent clamour of waters
In the blue canyon?

Ah, what art thou but a fern-frond,
Wet with blown spray from the river,
Diffident, lovely, sequestered,
Frail on the rock-ledge?

Yet, are we not for one brief day,
While the sun sleeps on the mountain,
Wild-hearted lover and loved one,
Safe in Pan's keeping?


XXXI
Love, let the wind cry
On the dark mountain,
Bending the ash-trees
And the tall hemlocks,
With the great voice of
Thunderous legions,
How I adore thee.

Let the hoarse torrent

In the blue canyon,
Murmuring mightily
Out of the grey mist
Of primal chaos,
Cease not proclaiming
How I adore thee.

Let the long rhythm

Of crunching rollers,
Breaking and bellowing
On the white seaboard,

Titan and tireless,
Tell, while the world stands,
How I adore thee.

Love, let the clear call

Of the tree-cricket,
Frailest of creatures,
Green as the young grass,
Mark with his trilling

Resonant bell-note,
How I adore thee.

Let the glad lark-song
Over the meadow,
That melting lyric

Of a molten silver,
Be for a signal

To listening mortals,
How I adore thee.

But more than all sounds,
Surer, serener,
Fuller with passion

And exultation,
Let the hushed whisper

In thine own heart say,
How I adore thee.


XXXII
Heart of mine, if all the altars
Of the ages stood before me,
Not one pure enough nor sacred
Could I find to lay this white, white
Rose of love upon.

I who am not great enough to
Love thee with this mortal body
So impassionate with ardour,
But oh, not too small to worship
While the sun shall shine,

I would build a fragrant temple

To thee, in the dark green forest,
Of red cedar and fine sandal,
And there love thee with sweet service
All my whole life long.

I would freshen it with flowers,
And the piney hill-wind through it

Should be sweetened with soft fervours
Of small prayers in gentle language
Thou wouldst smile to hear.

And a tinkling Eastern wind-bell,
With its fluttering inscription,
From the rafters with bronze music
Should retard the quiet fleeting
Of uncounted hours.

And my hero, while so human,
Should be even as the gods are,

In that shrine of utter gladness,
With the tranquil stars above it
And the sea below.


XXXIV
"Who was Atthis?" men shall ask,
When the world is old, and time
Has accomplished without haste
The strange destiny of men.

Haply in that far-off age
One shall find these silver songs,
With their human freight, and guess
What a lover Sappho was.


XXXVIII
Will not men remember us
In the days to come hereafter,-
Thy warm-coloured loving beauty
And my love for thee?

Thou, the hyacinth that grows
By a quiet-running river;
I, the watery reflection
And the broken gleam.


LIX
Will none say of Sappho,
Speaking of her lovers,
And the love they gave her,-
Joy and days and beauty,
Flute-playing and roses,
Song and wine and laughter,-

Will none, musing, murmur
,
"Yet, for all the roses,
All the flutes and lovers,
Doubt not she was lonely
As the sea, whose cadence
Haunts the world for ever."

LXX
My lover smiled, "O friend, ask not
The journey's end, nor whence we are.
That whistling boy who minds his goats
So idly in the grey ravine,

"The brown-backed rower drenched with spray,
The lemon-seller in the street,
And the young girl who keeps her first
Wild love-tryst at the rising moon,-

"Lo, these are wiser than the wise.
And not for all our questioning
Shall we discover more than joy,
Nor find a better thing than love!

Let pass the banners and the spears,
The hate, the battle, and the greed;
For greater than all gifts is peace,
And strength is in the tranquil mind."

XCII (fragment)
Like a red lily in the meadow grasses,
Swayed by the wind and burning in the sunlight,
I saw you, where the city chokes with traffic,
Bearing among the passers-by your beauty,
Unsullied, wild, and delicate as a flower.


XCV
Hark, where Poseidon's
White racing horses
Trample with tumult
The shelving seaboard!

Older than Saturn,
Older than Rhea,
That mournful music,
Falling and surging

With the vast rhythm
Ceaseless, eternal,
Keeps the long tally
Of all things mortal.

How many lovers
Hath not its lulling
Cradled to slumber
With the ripe flowers,

Ere for our pleasure
This golden summer
Walked through the corn-lands
In gracious splendour!

How many loved ones
Will it not croon to,
In the long spring-days
Through coming ages,

When all our day-dreams
Have been forgotten,
And none remembers
Even thy beauty!

They too shall slumber
In quiet places,
And mighty sea-sounds
Call them unheeded.



22 de mar. de 2013

Lenting

Clean mind, pure heart:
Touching skin, bones and marrow.
Watch the cross disappear,
As sakura trees bloom.





10 de mar. de 2013

サンセット


Café quente,
Um bom livro.
O sino ecoando do templo distante,
A lembrar que
O caminho é um só.


--

9 de mar. de 2013

Marching

All the gods wake from their white sleep
And bloom in full pink:
I can't help bowing in awe
And offering a prayer.
--

(Plum tree at Ueno park)