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25 de set. de 2012

Sílabas!

Os alfabetos silábicos do Japonês - com 46 símbolos cada* - nem sempre foram ensinados da forma como é feito hoje em dia, através de um painel silábico 5 vogais por 10 consoantes inspirado no sânscrito. Em meados do Período Heian (794-1179), por exemplo, surgiu o poema "Iroha" - supostamente escrito pelo grande monge budista Kuukai (空海)**-, composto usando todas as sílabas do alfabeto (um pantograma, portanto) apenas uma única vez, sem repetição. Ei-lo***:


いろはにほへと ちりぬるを
わかよたれそ つねならむ
うゐのおくやま けふこえて
あさきゆめみし ゑひもせす
Na versão contendo ideogramas:

色はにほへど 散りぬるを
我が世たれぞ 常ならむ
有為の奥山 今日越えて
浅き夢見じ 酔ひもせず


Segundo tradução do professor Ryuichi Abe:

Ainda que seu odor continue presente, a forma da flor já se foi
Para quem iria a glória do mundo permanecer imutável?
Ao tocar hoje o outro lado das profundas montanhas da existência evanescente,
Não devemos permitir-nos vagar, intoxicados, num mundo de sonhos rasos.    

Um outro pantograma, datado do século IX, é o ametsuchi no uta (天地の歌, canção do céu e da terra). Apesar de supostamente mais antigo que o poema anterior, sua estrutura é bem mais simples (ideogramas nos parênteses):


あめ つち ほし そら (天地星空)
やま かは みね たに (山川峰谷)
くも きり むろ こけ (雲霧室苔)
ひと いぬ うへ すゑ (人犬上末)
ゆわ さる おふせよ (硫黄猿生ふせよ)
えの枝を なれゐて (榎の枝を慣れ居て)


O Universo e a Terra, o céu estrelado;
Montanhas e rios, picos e vales;
Nuvens e neblina, quarto e limo;
Gente e cachorros, o topo do topo.
Enxofre, macaco, cresça!
Acostumo-me com os ramos de Enoki.


Apesar de extremamente simples, o poema contempla cinco temas - um em cada linha: Primavera, Verão, Outono, Inverno, memórias e paixão; e seu conteúdo é frequentemente utilizado como temática de haikus.


Vale notar a versatilidade que a construção silábica do Japonês permite ao idioma, especialmente quando se considera nessa mistura a capacidade de expressar ideias completas com o uso de um único símbolo através dos ideogramas. Um pantograma em Português, por exemplo, é bem menos poético: "Luís argüia à Júlia que «brações, fé, chá, óxido, pôr, zângão» eram palavras do português."

Talvez poderíamos pensar numa poesia pantogramática em sílabas? Hmm. Fica o desafio. :)

A título de curiosidade, os Chineses também têm suas versões de pantogramas (por incrível que pareça!). Um deles é o Qiān zì wén (千字文, clássico dos mil caracteres) e - como o nome sugere - é composto por mil ideogramas (hanzi, 漢字) sem repetir um sequer. Estruturado em 250 frases de 4 ideogramas cada, essa enorme obra escrita por Zhou Xingsi por volta do século V é utilizada até hoje para ensinar os jovens chinesinhos (e os 白鬼 aventureiros) a aprenderem seu idioma. Aos interessados, fica a dica! 加油!頑張れ! 



--

* No poema, são 47. Os caracteres ゑ (we) e ゐ (wi) caíram em desuso, aparecendo apenas em textos mais antigos; e surgiu o caractere ん, que não aparece no poema original (mas normalmente é recitado após a ultima sílaba). O silabário moderno é composto por 48 caracteres (mais 4 marcadores funcionais) escritos em dois tipos de alfabeto: hiragana (平仮名, alfabeto comum) ou katakana (片仮名, alfabeto fragmentado). Ambos são usados para reproduzir os 109 sons do Japonês moderno. Além do hiragana e do katakana, a língua Japonesa também faz uso de ideogramas (ou kanji, 漢字, símbolos com significado per se, ao contrário dos caracteres puramente sonoros dos dois sistemas silábicos) e de letras romanas (romaji, ローマ字).

** Kuukai (空海, oceano de vacuidade) - também conhecido pelo seu nome póstumo Koubou Daishi (弘法大師, o grande mestre propagador do Dharma), (774 - 835 d.C.) - foi um monge, poeta, servidor civil e acadêmico japonês. É considerado como patriarca fundador da escola budista esotérica Shingon no Japão. Apesar da crença popular, especialistas duvidam de sua autoria desse poema, cujo primeiro registro histórico data do início do século X.

*** Para ouvir monges cantando-o: http://www.youtube.com/watch?v=F3MSeUJ35MY. Há quem diga que esse poema foi inspirado no sutra do Nirvana (Supostamente, os últimos ensinamentos do Buda Shakyamuni antes de sua morte):




諸行無常 (Shogyō mujō)
是生滅法 (Zeshō meppō)
生滅滅已 (Shōmetsu metsui)
寂滅為楽 (Jakumetsu iraku) 


Todos os fenômenos são impermanentes:
Essa é a lei do nascimento e morte.
Na extinção do nascimento e morte,
O verdadeiro êxtase da liberdade dos desejos.




28 de out. de 2011

AMIGOS INVISIVEIS

Meu filho mais velho, quando criança, tinha um amigo invisível, que ele chama de Gudis. Ele vivia brincando com esse amigo e me lembro de que alguém perguntou pra ele se o Gudis não tinha fome, se não comia e meu filho disse que não, porque ele não tinha braços nem pernas. Curiosos, perguntamos como ele era e enquanto ele o descrevia, o Gudis foi embora e ele se despediu do amigo acenando um tchauzinho... para cima. O Gudis foi embora para cima, pelo ar.

Não sei o que conversavam, nunca perguntei e também creio que hoje ele nem se lembre dos assuntos que tratavam, mas nunca se esqueceu que tinha um amigo invisível e que se chamava Gudis.

Todos temos nossos amigos invisíveis e conversamos com eles, muitos de nós, inconscientemente. Contamos nossas ideias, projetos, sonhos e problemas. Quem nunca falou sozinho? Quem nunca divagou?

Ouvi várias teorias sobre amigos invisíveis e sempre preferi a dos anjos. As crianças veem anjos (dizem) e se comunicam com eles. Pais mais ortodoxos falam que isso é coisa do diabo. Francamente não acho que o diabo se sinta confortável com essa afirmação de que ele seja um amigo, mesmo que invisível, até porque sabemos que ele é exatamente o oposto disso, apesar de invisível. Mas voltando a teoria das crianças e dos anjos, contam que depois de um tempo elas perdem esse contato. É como se eles ficassem um tempo necessário para que as crianças se adaptem a este planeta, a forma humana e depois vão embora e as crianças crescem e nos tornamos tristes porque nos afastamos do amigo pessoal que nos guardava a mando de Deus.

Sei que estes amigos invisíveis alegram-se com a restauração do homem de forma intensa, impossível de ser relatada (Lc 15.7,10) pude sentir perfeitamente esse momento quando reconheci Jesus naquele oito de janeiro, de um ano que seria muito conturbado em minha vida.

O réveillon mais triste e mais feliz de minha vida foi o primeiro depois de meu reencontro com Cristo. Triste porque depois de vinte anos juntos, estava sem minha esposa (estávamos nos separando) e sem o meu menor que estava com ela. Feliz porque eu e o amigo visível do Gudis passamos a virada de ano de joelhos numa igreja, adorando a Deus.

Tenho certeza que ele orava por mim, como também tenho a certeza que o Gudis e outros milhares de amigos invisíveis estavam ali, recolhendo nossas lágrimas e orações para levar para cima. Só não demos tchauzinho desta vez e nem precisávamos, porque já tínhamos a certeza de que eles sempre retornam com as respostas lá de cima.

27 de set. de 2011

Caminhando

Na estrada. O verão aparentemente já deu seus últimos suspiros, e já dá pra sentir as manhãs frias de outono.

A natureza de Tohoku é realmente incrível. A estrada corta pelo meio de pequenos montes, cobertos por árvores altíssimas e de poucos ramos e por pinheiros. O cenário se alterna com algumas poucas planícies, com plantações de arroz e algumas casas de madeira de estilo tradicional. A cada 20 ou 30 minutos, uma cidadezinha.

Passei a última semana em Kesennuma, na província de Miyagi. Kesennuma é uma cidade costeira, a segunda mais afetada pelo Grande Terremoto do Leste do Japão, depois de Ishinomaki. Ao contrário desta, Kesennuma é muito menor (tem uma população entre 7000 e 8000) e não é um spot turístico. Estive com um grupo de estudantes voluntários para a recuperação da região; grupo organizado e bancado pela Fundação Japão (Nippon Zaidan), chamado "Gakuvo" (uma abreviação pra Gakusei volunteer, estudante-voluntário). Essa foi a terceira vez que participei de uma missão dessas, e foi a mais longa e pesada; e a cada vez que participo delas me surpreendo mais com os japoneses.

Existe um certo tabu que é difícil fazer amizade com os japoneses, que são pessoas fechadas e duras, mas não é bem assim sempre. Nosso grupo tem 28 pessoas, 8 ryuugakusei (alunos estrangeiros) e 20 japoneses, desde Fukuoka e Nara até Tokyo; tivemos oportunidade de conversar bastante e conhecer melhor uns aos outros. Na frieza e na correria de Tokyo, é normal achar que os japoneses são pessoas frias e talvez até egoístas, e esses momentos são importantes para conhecermos outros lados deles.

Uma das meninas trabalhando conosco trabalha no Outback (restaurante australiano) em Shibuya (bairro de Tokyo), onde fui com amigos brasileiros comemorar o aniversário de um deles. Imagino quantas pessoas não passam diante de nossos olhos, interagem conosco, e nós muitas vezes nem percebemos; passam como sombras, como meros objetos inanimados que não nos desperta atenção - já que normalmente estamos mais concentrados em nossos próprios pensamentos e nossa própria vida.

Outro dos meninos estuda na Shibaura Kogyo Daigaku (Universidade Tecnológica de Shibaura), no bairro onde eu moro. No nosso último dia de trabalho, ficamos em times diferentes: fui preparar sacos de pedra ("âncoras"), enquanto o time dele ficou responsável por remover janelas de uma casa vizinha à qual estávamos hospedados e fazer as compras para o churrasco de despedida. Ele se sentiu mal por ter feito um trabalho leve enquanto nos esgarçávamos carregando sacos de pedras, e - por isso - deixou todos tomarem banho antes dele. É apenas um pequeno gesto, mas é nesses pequenos gestos que se vê o caráter de alguém.

Dentre várias coisas, duas me impressionaram mais: no primeiro dia de trabalho, fomos recolher e separar destroços de um lugar que, outrora, era uma casa. Enquanto limpávamos o mato que, após todos esses meses, cobrira o local, tentávamos advinhar que parte da casa era cada canto do terreno. Mais tarde, um dos ryuugakusei, da Malásia, comentou: "nós tentávamos imaginar mas, com certeza, quem morava lá não veria aquilo como um monte de mato e destroços, mas como uma sala, um quarto; veria como uma coleção de memórias - uma vida." E, realmente, a cada sapato, cada brinquedo que encontrávamos pela frente, podíamos imaginar quantas lembranças não viveriam neles.

Outra coisa que me chamou a atenção, no segundo dia de trabalho, fui com um time para preparar sacos de pedra. Fomos para uma espécie de porto e trabalhamos com pescadores, todos já acima dos 60. Um deles, já nos seus 70 e poucos, estava lá carregando sacos de 55 kg com muito mais desenvoltura que nós estudantes. Em um dos intervalos de trabalho, um dos pescadores veio conversar comigo. Falou por mais de 5 minutos, dos quais mal-e-mal entendi o assunto. Ele falava de como o Brasil é um país rico e maravilhoso e de como os japoneses são inteligentes por terem ido se estabelecer por la. Acho que, realmente, somos abençoados, né?

Bom, é isso. Primeira parada da viagem de volta.
お疲れ様です!

19 de set. de 2011

Silent Hills

The desperate and lazy cicada songs echoed across the valley. After a heavy rain, dark clouds gave place to a beautiful dark blue sky. Meanwhile, the master - in a low voice and portraying a shy smile - formally started the 3 days zazen retreat.

The master, mr. Wolfram, is a middle age german guy. He has kind blue eyes, short hair and a thin face, that reminds a little of my father. His calm manners and somehow clumsy ways of dealing with the master robes reflect his pure practicing heart. He's a really nice guy. :)

Once again, rain started to fall heavily, making that delicious "washing your head out" sound inside the zendo. It was the perfect atmosphere to begin a journey throughout oneself's mind (or lack thereof).

The days began early, at 4:30, with a noisy wake up call followed by a sleepy 45 minutes zazen; during which the sky gradually turned clear again, and nature woke up. Mr. Kitamori, the temple's keeper, went at 6:00 to ring the big bell, while listening to the morning news in his old battery radio. (Reminds me of my granpa, who always wakes up at 5:00 and listen to the same radio program in the same old radio, for 30 years so far.) The bell echoes through the valley, far far away, and inside our heads for a long time.

The retreat went on calmly, as the master. Despite all the nature and environment around, the walls are the same as everywhere. Also the wild thoughts and painful legs. Somewhere in the lectures the question arised: how is zazen different from doing sports? "Zazen is not pleasant", was my first thought on this. And, in fact, it is not pleasant at all. But, if it is not pleasant why do we do it? This was another question raised in the discussion. "We're damn masochists!" :)

The struggling went on for the three days, broken by the delicious oriyoki meal times. Mr. Kitamura, who also cooked for us, is an old, short, bald japanese guy. He is not formally a monk, but working there for years gave him a sort of "enlightened" look. Apart from working at the temple, he runs a restaurant in Tokyo (which, by the way, I need to look for!), and makes delicious veggie dishes! I ate some things I have absolutely no idea of what were! I wish I could learn from him. :)))

We had no cerimonies, no chanting (except for oriyoki time) and no dokusan (interview with the master): it was a very informal and relaxed retreat, focused on zazen practices and lectures. Although I think cerimonies and chanting are an important part of training, the sesshin duties and timetable were very well organized and we had just the enough amount of everything!

The lectures where centered on Dogen's Shobogenzo. I'll close with one of my favorite and struggling quotes, from a chapter called Genjo koan (something like "realizing the fundamental point"):

"To study the Buddha Way is to study the self. To study the self is to forget the self. To forget the self is to be realized by everything. When realized by everything, your body and mind as well as the bodies and minds of others drop away. No trace of enlightenment remains, and this no-trace continues endlessly."

:)

12 de set. de 2011

Flowing

Up in the starry sky
Clouds go by in a rush.
Where did they come from?
Where are they going to?

The wind blows sneakily.

11 de ago. de 2010

Damo




Há, em geral, um grande mal entendido sobre o uso de estatuetas como representação de alguma personalidade ou algum atributo em particular; especialmente aqui no Ocidente cristão. Na percepção cristã, uma estatueta é considerada uma "imagem", objeto de culto e adoração - o que vai contra os desígnios do deus cristão. Entretanto isso é apenas um grande mal entendido. Existe uma diferença notável entre o pensamento oriental e o ocidental, que deve ser levado em consideração (o que é impossível, se consideramos uma visão como "correta" - e consequentemente a outra como "errada").

No budismo Mahayana - particularmente no Zen - falamos em budas e bodhisattvas. O que são eles? Deuses? Demônios? Entidades para serem adoradas? Nada disso cabe no pensamento oriental. Essas designações são produto da análise de uma cultura com o pensamento de outra: algo fadado a interpretações errôneas.

Na foto, um boneco japonês tradicional, o damo. Esses bonecos são como o nosso "joão-bobo": são empurrados, caem e se levantam. Na cultura japonesa, é um símbolo de persistência. Ele representa o primeiro patriarca do Zen no oriente, também tido como um dos patriarcas do Kung Fu: o monge indiano Bodhidharma ("a verdade da iluminação," numa tradução literal) - 28º sucessor desde o buda Shakyamuni (o príncipe Sidarta).

Segundo a lenda, Bodhidharma teria chegado a Shaolin e ficado durante nove anos meditando em uma caverna, de frente a uma parede. Desses nove anos, sete ele teria dormido. Irritado com isso, teria arrancado suas próprias pálpebras e jogado-as no chão, do que teria brotado a erva do chá - para manter os estudantes de meditação acordados durante sua prática (por isso, Bodhidharma é também tido como patriarca do chá). Outra lenda conta que suas pernas e seus braços atrofiaram e caíram depois desse tempo todo em meditação. Disso resulta a forma do boneco japonês da figura: Um ovo, barbudo, com olhos sem pálpebra.

Exista um poema japonês que ilustra o pensamento representado pelo damo:

人生
七転び
八起き

Jinsei.
Nana kotobi
Ya oki.

Assim é a vida:
Caia sete vezes,
Levante oito.


6 de ago. de 2010

Um aporte sobre a Realidade

O que é "realidade"? Será que alguém é capaz de explicá-la?

Estudamos o mundo a nossa volta através da ciência: sabemos que matéria é feita de átomos, que - apesar do nome - são constituídos de partículas ainda menores (elétrons e quarks) e uma miríade de particulas subatômicas; e sabemos que calor, luz, ondas de rádio e TV são apenas percepções diferentes de uma mesma essência (as radiações eletromagnéticas). Estudamos tudo isso com bastante afinco, sob o rígido julgo do impávido Método Científico. É sua aplicação que nos diferencia das assim chamadas "pseudo-ciências" - estudos aparentemente sérios mas que não levam em consideração o rigor devido imposto pela metodologia da pesquisa científica, como a imparcialidade dos julgamentos, a amostragem aleatória e os testes cegos de hipóteses objetivas.

As radiações eletromagnéticas são caracterizadas por duas componentes: uma elétrica e uma magnética (daí o nome), e são identificadas por duas grandezas físicas - o comprimento de onda (a distância entre dois picos consecultivos) e a frequência (número de picos por segundo). A energia de uma radiação é diretamente proporcional à sua frequência e inversamente proporcional ao comprimento de onda. As radiações de maior frequência aparecem à direita na figura, e têm um comprimento de onda de dimensões atômicas. Por isso têm maior penetração na matéria e causam maior dano - são os raios gama. No outro lado do espectro aparecem as ondas de rádio, com comprimentos enormes, do tamanho de um prédio! No meio do caminho, em uma estreita faixa de comprimentos de onda, aparece a radiação visível - correspondente àquela radiação que é detectada pelas nossas células oculares e que percebemos como cores: as vermelhas têm frequência (e, portanto, energia) mais baixa e as violetas, mais alta. Logo acima do violeta, surgem as radiações ultravioleta, com maior energia; e abaixo da vermelha, as radiações infravermelhas.

A ciência já nos permitiu (e permite cada vez mais) avançarmos no entendimento do mundo ao nosso redor. Entretanto, será ela capaz de efetivamente dizer o que é esse mundo? Até alguns anos atrás, a linha que separava matéria e energia era bastante clara. Até que nomes como de Broglie e Einstein mostraram que, na verdade, matéria é também energia e vice-versa. A luz, um exímio exemplo de radiação, também pode ser tratada como feixes particulados, com seus fótons de diferentes quantidades de energia - como mostrou Planck lá atrás em 1800 e bolinhas. De Broglie veio provar que essa dualidade também vale para toda matéria no começo do século XX. E agora? Matéria e Energia não eram coisas diferentes?! Pobre Lorde Kelvin! Se ele soubesse a revolução que a "pequena nuvem no céu de brigadeiro" que representava o problema da radiação do corpo negro iria fazer no corpo das ciências, com certeza arrancaria suas barbas de desespero!

O ponto é simples: nós cientistas tentamos dividir e diferenciar o mundo a nossa volta em porções lógicas para conseguirmos estudá-lo apropriadamente. E não há nada de errado nisso. O problema é quando começamos a aceitar nossas divisões como realidade absoluta e suprema. Quando a Mecânica Quântica começou a ser postulada, muitos físicos agarravam-se à visão mecanicista de Newton com unhas e dentes. Tudo bem, não há nada de errado com a Mecânica Clássica: ela só não vale para algumas condições mais específicas, como os mundos moleculares e os de condições extremas, onde prevalecem os efeitos relativísticos. Fora isso, no "mundo médio", é perfeitamente plausível e justificável utilizá-la. Mas, veja, coisas similares acontecem até hoje! Muitos e muitos cientistas agarram-se tão ferrenhamente a ideais e modelos que perdem a chance de se maravilharem com incríveis descobertas e teorias! Precisamos ter em mente que teorias e modelos estão sujeitos a mudanças, e que o que nós sabemos hoje não corresponde exatamente às coisas como elas são, mas são sim conceitos que nós construímos para explicar o que é inexplicável.

Quem pode explicar a cor azul? Ou a sensação de calor? Ou o sabor do chá? Ou a beleza de uma melodia, de uma poesia? Ou o amor?

A ciência pode explicar porque uma cor é azul e como percebemos a cor azul. Pode explicar como as células oculares são impressionadas pela radiação de comprimento de onda entre 450 e 500 nm, emitida pelo decaimento de elétrons, outrora excitados por uma radiação externa, a orbitais de menor energia da molécula (ou íon) cromóforo presente no tal objeto azul. Pode explicar como as células transformam essa impressão em sinal elétrico e como esse sinal viaja quimicamente através de diversos neurotransmissores até o tálamo e a assim por diante no cérebro, até o processamento da imagem e a construção do modelo em nossas cabeças. Mas, mesmo assim, não pode explicar o que é "azul". Por quê?

Apesar de toda a objetividade da ciência, ela não pode nos dar certas respostas porque o mundo que nós experimentamos é subjetivo. Total e completamente subjetivo. O azul que eu enxergo não é o mesmo que você enxerga. Podemos estar no mesmo lugar, mas o mundo que eu ver não será o mesmo que o que você ver. Nossa percepção de mundo é construída no cérebro, e esse processo inclui tantas variáveis quanto puder imaginar nossa vã idéia de infinito. Uma ilha paradisíaca poderia ser o lugar mais feio do mundo se você estiver de mau humor; analogamente, uma tarde de rush na marginal Tietê pode ser o melhor lugar do mundo pra se estar, dependendo das suas condições emocionais. O mundo, esse que nós experimentamos todos os dias, não é mais do que um produto de nossas cabeças. A cor dos seus olhos, o sabor do seu chá preferido, o pôr do sol; nada disso é igual pra duas outras pessoas no mundo.

Nesse contexto, falar em "realidade" parece algo duvidoso. Será que existe alguma realidade independente do nosso subjetivismo? E, mais importante: se existir, será que estaria a nosso acesso? O Método Científico busca justamente eliminar essa parcialidade da visão subjetiva dos estudos, mas não é em todas as áreas que isso sempre é possível. Até hoje não conseguimos, por exemplo, compreender o que é a mente e a consciência, e como isso está relacionado ao construto físico do cérebro. Estudar a consciência de forma objetiva é algo talvez impossível, por isso é tão difícil obter informações cientificamente adequadas sobre esse assunto. O que são os sonhos? Como eles se formam? E as emoções, os desejos, os pensamentos?! Difícil, não é? Por enquanto, essas respostas pertencem ao reino da metafísica (i.e. "além" da física, no sentido de não serem acessíveis por métodos físicos), parte do domínio da grande ciência do conhecimento, a Filosofia.

O filósofo indiano Nagarjuna (que viveu em algum momento entre os séculos II e III) propunha que toda a realidade era, na verdade, vazia. É a teoria do Sunyata, ainda hoje presente em várias escolas do pensamento oriental. Quando Nagarjuna diz que os fenômenos são vazios, ele não está sendo nihilista: a vacuidade de Nagarjuna é na verdade um vazio que contém tudo. (Oi? Não, eu não bebi hoje.) O vazio representa algo que é impermanente e não-conceituável. Nessas linhas, pode-se aproximá-lo à noção taoísta de Tao. A realidade seria, portanto, algo não-conceituável e impermanente, passível de quaisquer diferentes formas de compreensão e percepção. Fazendo uma analogia com a física, é como se a realidade fosse um gás: não conseguimos conceber sua forma até que esteja encerrado em um recipiente definido, como um botijão ou uma caixa. O gás pode ser moldado em quaisquer formas e volumes que desejarmos, dependendo unicamente de nossa ação. Assim é a realidade proposta na vacuidade: ela pode ser moldada em quaisquer interpretação que quisermos, dependendo unicamente de nossa percepção - porque não tem uma "forma" fixa, imutável e permanente. Perceba que não é uma idéia nihilista. Não é um vazio absoluto que nada contém, e sim um vazio que contém absolutamente tudo. Outro dia postei aqui uma interpretação do Sutra do Coração (Hannya Shingyo), que discorre exatamente sobre essa vacuidade de Nagarjuna, e dá uma luz nas implicações que esse pensamento pode trazer à vida cotidiana.

Representação artística do sunyata ("vazio"), conceito filosófico proposto por escolas de pensamento indianas e bastante difundido por Nagarjuna. É um dos conceitos centrais da filosofia budista, tema central dos ensinamentos do buda no que concerne à interpretação dos fenômenos. Essa simbologia é particularmente presente na tradição das escolas do budismo Zen, cuja prática central (o zazen) é baseada na experimentação direta desse conceito através da análise subjetiva não-interagente dos fenômenos (shikantaza zazen), ou de análises subjetivas motivadas (meditações).

Bem, essa é apenas uma das diversas filosofias que tentam explicar o que é a realidade. Existem várias teorias por aí, e aceitá-las ou não é uma questão completamente subjetiva - assim como as teorias em si. Compreendê-las é um verdadeiro exercício mental, e apenas usando o cérebro (ou seja, fazendo experimentos subjetivos) é que se é capaz de julgar a plausibilidade dessas teorias.

Até então a Filosofia é a única ferramenta que pode nos sugerir respostas sobre se há e o que é "A Realidade". Analise as opções e escolha o que te faz mais sentido. Quem sabe um dia nossa ciência física não chega a respostas mais concretas, não é?

Até lá, vamos vivendo e aproveitando nossos mundinhos subjetivos. :)

1 de ago. de 2010

A Essência da Sabedoria Perfeita (Hannya Shingyo, 般若心經) Revisited

Releitura dos versos da Grande Sabedoria Perfeita, texto tradicional da escola Zen (assim como das demais escolas Mahayana). Não se sabe ao certo sua origem, mas o registro mais antigo remonta à China do segundo século d.C.

O texto é construído na forma de uma preleção, uma instrução de um professor a um aluno dedicado; simbolizados por dois arquétipos comuns nos cânones budistas: o boddhisattva Avalokitesvara (Kannon) - símbolo de compaixão infinita - e Shariputra (Sharishi), um discípulo de bons méritos.

Para interpretações e leituras mais tradicionais, Google it ("Sutra do Coração").

Esse texto (ou sutra) retrata a essência de tudo que é ensinado e praticado em todas as escolas budistas. Entendê-lo é como juntar pequenas pecinhas de um quebra-cabeças além do intelecto, que requer tempo e, acima de tudo, prática. Entendê-lo intelectualmente é como buscar entender o sabor de um chá por conhecer a química das ervas. Deve-se bebê-lo, sorver cada gole, sentir cada célula ser permeada, impressionada e tocada pela experiência direta de cada microlitro.

:)

~

Versos da Essência da Grande Sabedoria Perfeita
(maha prajna paramitta hridaya sutra)
Releitura da versão japonesa (摩訶般若波囉弭多心經) da tradição Zen

Aquele que ouve todos os sons do mundo toca profundamente a sabedoria perfeita,
E assim vê claramente que os cinco agregados são vazios e liberta-se de todo sofrimento.

"Ouça, filho de bons méritos: forma não distingue-se de vazio, e o vazio não distingue-se da forma;
A matéria é também vazia; e o vazio é também matéria.
O mesmo é válido para as sensações, percepções, impulsos e a consciência.

Filho de bons méritos, a natureza última de todos os fenômenos é vazia:
Não aparece e nem desaparece, não é impura e nem pura, não aumenta nem diminui

Assim, no vazio, não há matéria, nem sentimentos, percepções, impulsos ou consciência;
Não há olhos, ouvidos, língua, corpo nem mente;
Não há cor, som, odor, sabor ou toque; e nem pensamentos.
Não existem os sentidos dos olhos, ouvidos, língua, corpo, nem da mente consciente.

Não há ignorância e nem extinção desta
E assim por diante até envelhecimento e morte e nem extinção destes.
Não há sofrimento, nem origem deste;
Não há extinção deste, nem caminho para tal;
Não há sabedoria e nem ganhos, pois não há nada a ganhar.

Assim o sábio vive a perfeita sabedoria
E não há obstáculos em sua mente. Sem nenhum obstáculo, não há medo.
Eliminada a visão obscurecida, chega-se à outra margem.

Todos os grandes sábios do passado, presente e futuro praticam a sabedoria perfeita, e atingem o entendimento mais completo de todos.

Portanto, saiba que a sabedoria perfeita
É a grande expressão transcendente
A grande expressão iluminada
A mais perfeita expressão
A expressão suprema
Capaz de libertar de todo sofrimento
E é verdadeira, não falsa.
Então proclame a expressão da Sabedoria Perfeita
Viva essa expressão.
Vá, siga em frente! Continue em frente! Siga ainda mais adiante: 
Isso é iluminação."

~

18 de jul. de 2010

Um botão no tempo


As flores nascem em todo seu esplendor
Os botões florescem em todo seu esplendor
Depois murcham e morrem, em todo seu esplendor

~

Uma flor nasce e murcha. À semelhança disso, também o homem, as estrelas e mesmo o Universo - que tanto nos parece eterno - um dia morrerá. E, no meio desse tempo sem tempo, a vida humana é como um breve instante, um piscar de olhos ou um estalo dos dedos. Nesse lapso da eternidade, um ser humano ri, chora, ama alguém, odeia alguém, adoece, e morre.



Não desperdice tempo.

13 de jul. de 2010

O portal sem portais

"Na primavera, centenas de flores;
no outono, uma lua cheia;
No verão, uma brisa refrescante;
no inverno, a neve lhe acompanhará.
Se coisas inúteis não lhe ocuparem a mente,
Qualquer estação será uma boa estação."

Esse poema foi escrito por Wumen Huikai (無門慧開), mestre zen chinês que viveu entre 1183 e 1260. Ele foi o responsável pela compilação de 48 koans (casos públicos) clássicos, publicados em sua obra "O Portal sem Portais" (The Gateless Gate, Mumonkan, 無門関). Nesse livro, todos os 48 koans são comentados e acompanhados por um verso escrito pelo mestre. Esse poema acompanha o koan intitulado "O dia-a-dia é o caminho," (caso 19) que retrata a iluminação de Joshu (Zhaozhou, monge chinês do século VII).

O verso fala mais alto que o próprio koan. Huikai resume em poucos versos toda a essência da prática, do caminho. Compreender esses poucos versos vale mais do que o livro inteiro.

:)

19 de mai. de 2010

Sobre o "Sofrimento" (II)

"Mas aos que sofrem, Ele os livra em meio ao sofrimento; em sua aflição Ele lhes fala." (Jó 36:15)
"Disse o Senhor: 'De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo. Por isso, desci para livrá-los das mãos dos egípcios e tirá-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel (...)'" (Ex 3:7-8)

Quando procuramos por sofrimento na Bíblia, nos deparamos com uma vastidão de material para estudar. De fato, se pudéssemos visualizar em imagens e ouvir o Velho Testamento (VT), provavelmente não seria algo muito diferente de rios de sangue e súplicas desesperadas (seria como assistir a um programa de jornalismo policial, talvez?). E note que isso não é exclusividade do VT: o Novo Testamento (NT) está cheio de relatos de sofrimentos e "maus bocados" pelos quais passaram os apóstolos.

Se analisarmos a etimologia das palavras que a Bíblia traduz como "sofrimento", chegaremos à conclusão de que a barra era realmente pesada. A palavra em hebraico traduzida como sofrimento/aflição é עֳנִי (onii), derivada do verbo עָנָה (anah) que - de modo geral - significa "ser oprimido", "ser colocado para baixo"; e tem sua origem relacionada à ação de arar a terra. Como comentei no post anterior, o sofrimento duhkah estava relacionado ao desalinho do eixo; já o sofrimento anah está relacionado à sensação de ser arado. Tenso, né? Dessa forma, num contexto cristão do VT, o sofrimento é algo sensível tanto física quanto espiritualmente. É aflição mesmo, no sentido mais profundo da palavra.

No Novo Testamento, uma das palavras mais encontradas para designar sofrimento é πάθημα (pathema), derivada de πάθος (pathos) - mesma raiz da palavra paixão. Pathema difere de pathos apenas por ser um termo mais concreto e específico. Na Grécia Antiga, pathos tinha uma significância tanto positiva quanto negativa, mas no NT é quase invariavelmente ligado à coisas negativas. Seguem exemplos do pathema:

"Considero que nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada." (Rom 8:18)

"Pois assim como os sofrimentos de Cristo transbordam sobre nós, também por meio de Cristo transborda a nossa consolação" (2Cor 1:5)

"Ao levar muitos filhos à glória, convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o autor da salvação deles." (Heb 2-10)

O pathema grego está, então, intimamente relacionado às emoções. O sofrimento expresso no NT, portanto, tende mais ao sofrimento emocional do que aquele do VT. Isso pode ser compreendido em termos históricos, se considerarmos o contexto em que o povo hebreu surgiu e existiu na época antiga. Era um povo constantemente escravizado, envolvido em batalhas; com uma história banhada a sangue. Sua divindade, portanto, precisava desempenhar um papel guerreiro - era um Deus herói, que ouvia os gritos de dor, que sentia em Si mesmo as aflições físicas do povo-escravo e Se erguia para devastar e destroçar os inimigos.

Na época do Novo Testamento, a cultura judaica estava inserida em um ambiente mais civilizado, e creio que não experimentava tanto derramamento de sangue quanto nos tempos arcaicos. O sofrimento, então, assume uma conotação mais introspectiva: o foco não está nas lamentações do físico, mas do espiritual (não esquecendo aqui, obviamente, da perseguição dos apóstolos da Igreja Primitiva, nem as próprias molestações que Jesus sofreu antes e ao longo da crucificação).

Qual a raiz do sofrimento, para um cristão? Se pensarmos no pathema, poderíamos vislumbrar uma raiz relacionada ao pathos: à paixão, ao apego. Se nos apegamos a algo, se temos um sentimento forte, isso pode nos levar ao sofrimento: sofrimento por não ter aquilo que queremos, e sofrimento por pensar em perder aquele objeto de nossa paixão. Esse tipo de sentimento está intimamente relacionado ao ego. Só há paixão, desejo e apego se há um "eu" para fazer usufruto do objeto do desejo. Nossa própria noção de "eu" se confunde com as coisas que possuímos e às quais nos agarramos: eu sou advogado, eu tenho um carro, eu tenho uma esposa e três filhos, eu tenho uma casa na praia, eu isso, eu aquilo, etc. Quanto mais se tem, mais se tem a perder também e - por consequência - mais sofrimento em potencial. E, também, quanto mais se tem, mais se quer ter, e mais o ego é fortalecido.

Esse conceito de sofrimento devido ao fortalecimento do ego está diretamente relacionado, na teologia Cristã, à separação de Deus. Quando estamos separados de Deus (o que, em última análise, é impossível), nos sentimos vazios e tentamos preencher esse vazio construindo uma imagem de nós mesmos; mas isso nada mais é do que juntar tijolos sobre uma base fraca que invariavelmente vai ceder: quanto mais tijolos, maior o peso a sustentar e, consequentemente, mais estrago fará a queda. Fortalecer o ego é uma armadilha, que não trará nada além de mais sofrimento. Jesus disse (Jo 12:24) "Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto." E, ainda: "Bem aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus" - 'pobres em espírito' concerne exatamente à pobreza espiritual, que é a realização de que não somos suficientes, porém dependentes e responsáveis uns dos outros e uns pelos outros. Daí implica na atitude de ausência de sentimento de posse, de apego, diante de todas as coisas. Isso é morrer.

Paulo também afirma (Rom 8:13) que "se [vocês], pelo Espírito, fizerem morrer os atos do corpo, viverão." Portanto, é necessário morrer para viver; é necessário morrer para ter comunhão com Deus, em sua plenitude.

Matar o ego: esse é o caminho ensinado por Jesus para das cabo ao sofrimento. É matando o ego que se permite o nascimento do Espírito, que é o amor. O amor incondicional e universal de Deus. E é esse amor que move a vida, e nos faz, verdadeiramente, habitar o Reino dos Céus. :)

16 de mai. de 2010

Sobre o "Sofrimento"

Há mais ou menos 2500 anos nasceu, em Lumbini (no atual Nepal), um homem que viria revolucionar o modo de encarar a vida. Filho de um poderoso rei do clã dos Shakyas, o príncipe Sidarta (do páli: "aquele que atinge os objetivos") cresceu na cidade-palácio de Kapilavastu (também no atual Nepal), recebendo sempre os melhores tratamentos, rodeado pelas melhores jóias, as melhores mulheres e a melhor educação que um príncipe poderia ter à época.

Diz a lenda que havia na região um sábio andarilho chamado Asita, que - na ocasião do nascimento do príncipe - previra que este se tornaria um grande rei e dominaria toda Kosala (região onde estava inserido o reino dos Shakyas), ou então se tornaria um grande sábio e seus ensinamentos extender-se-iam por todo o mundo e por todo o tempo. O velho Asita aconselhou ao rei Suddhodana - pai de Sidarta - que, se era da vontade dele que o filho se tornasse um grande imperador e não um sábio religioso, então ele deveria fazer tudo o que estivesse a seu alcance para impedir que o príncipe tivesse contato com qualquer tipo de sofrimento. Por conta disso, reza a lenda, Sidarta cresceu num lugar maravilhoso. Não haviam pessoas doentes, ele não via mortes - nem de animais! Só existiam pessoas novas, belas, e só havia alegria pairando no ar. Sidarta teve mulheres, casou-se com uma prima da nobreza, Yashodara, e teve um filho, Rahula.

Mas, os esforços do rei foram em vão. Nas suas saídas do palácio, Sidarta teve quatro visões que mudariam sua vida: ele viu uma pessoa idosa, uma doente, uma morta e - por último - um monge asceta. Seu fiel amigo e guia de carruagens Channa, quando indagado "o que eram" aquelas pessoas, lhe contou que todos - sem exceção - envelhecem, ficam doentes, e morrem. Sidarta ficou perturbado com isso em, aos 29 anos, decidiu que partiria numa jornada rumo a entender esse mundo - como aquele último personagem que encontrou nas suas caminhadas. Eventualmente, após procurar por vários mestres e praticar o ascetismo ao ponto de ficar tão magro que a pele do abdomem se encontrava com a das costas, Sidarta percebeu que o caminho não era por aí: não adiantaria em nada mutilar seu corpo, pois sem o corpo, como ele seria capaz de compreender a mente? Sidarta é tido como fundador da filosofia do "Caminho do Meio" - um caminho de moderação entre extremos.

Por fim, após 6 anos de práticas intensivas, Sidarta sentou-se sob uma árvore Bodhi e meditou por 49 dias até atingir o chamado estado "Iluminado", pelo que ficou conhecido como "Buda" (do páli: "o iluminado"). O que significa ser iluminado? Bem, isso é assunto pra outros tópicos...

Todo ensinamento do Buda baseia-se no que é chamado de "As Quatro Nobres Verdades":

  1. A Existência do Sofrimento;
  2. A Origem do Sofrimento;
  3. A Cessação do Sofrimento;
  4. O Caminho para a Cessação do Sofrimento.

Bom, dá pra notar que todo ensinamento budista constrói-se em torno do sofrimento né? Parece algo pessimista não é mesmo?

Para o leitor desavisado fica a dica: assim como Jesus, Mahatma Gandhi, George Bush, o Chaves e o Lula, o Buda não falava Português. Sua língua nativa era o Páli - um tipo de língua indo-ariana, como o sânscrito. Em páli, essa palavra que é normalmente substituída por "Sofrimento" é "Dukkha", ou "Duhkha" em sânscrito. Os antigos Arianos, que levaram o Sânscrito e as línguas afins para a Índia, eram um povo nômade que viajava em carroças ou veículos similares puxados por bois ou cavalos. "Dus" é um prefixo que significa "ruim", e "kha" - que significa "céu", "éter" ou "espaço" -, originalmente significava "buraco", mais especificamente um orifício ligado à colocação do eixo de um desses veículos Arianos. Assim, dukkha significava algo como "com o eixo desalinhado", que era algo que levava - obviamente - ao desconforto dos passageiros.

Quando o Buda discorre sobre o sofrimento, sua causa e como encerrá-lo, ele não está falando das dores, do sofrimento físico em si - e sim sobre essa sensação de desequilíbrio. Ele ensina que existe sim um desequilíbrio, que é a raiz do desconforto que muitas vezes sentimos em nossas vidas. E esse desequilíbrio, é - de acordo com a Segunda Nobre Verdade - produto da ignorância (não, não é aquela ignorância que te faz mandar o motorista do Fusca 76 na sua frente ir a lugares turísticos de gosto duvidoso. Essa tem outro nome.), da ignorância das coisas como elas são verdadeiramente. Essa ignorância leva às chamadas Três Raízes Insalutares: avidez, ódio e delusão que, em última análise, conduzem ao desequilíbrio que acarreta no sofrimento.

O caminho que - segundo o Buda - leva à cessação desse desequilíbrio (o Nobre Caminho Óctuplo) envolve um trabalho de desenvolvimento e aperfeiçoamento de três características: sabedoria (prajna), conduta ética/moral (sila), e capacidade de concentração (samadhi); e prescreve oito passos:

  1. Visão correta;
  2. Intenção correta;
  3. Fala correta;
  4. Ação correta;
  5. Modo de vida correto;
  6. Esforço correto;
  7. Atenção plena correta;
  8. Concentração correta.

O modo de ensinar do Buda segue um pouco o modo como os médicos da época tratavam uma doença: faziam o diagnóstico identificando a causa da doença e prescreviam um tratamento para ela. É mais ou menos isso que o Buda faz com o desequilíbrio-sofrimento - analisa a causa e prescreve como combatê-la.

O Buda, o príncipe Sidarta, foi um homem como qualquer um de nós. Ser humano, filho de seres humanos. Não era um Deus, não era alguém de outro mundo. Teve mulheres, teve um filho; tinha medos, angustias, desejos, como qualquer ser humano. Não nasceu de uma virgem, e não foi arrebatado aos céus. Morreu calmamente com 81 anos, após ter milhares de discípulos e deixar um legado histórico incrível que sobrevive até os dias de hoje.

Hoje é celebrado, em vários locais do mundo, o Vesak - uma data criada para comemorar o nascimento, a iluminação e a morte desse grande sábio e pensador asiático. A celebração do Vesak segue um calendário lunar (como era padrão na Ásia até sua ocidentalização e conversão ao calendário gregoriano), e é mais comumente feita entre as comunidades budistas Theravada e algumas escolas Chinesas. No Japão, a celebração do nascimento do Buda é feita durante o Hanamatsuri, no oitavo dia do mês de abril; e sua iluminação é celebrada no princípio de dezembro, quando - particularmente nas escolas Zen budistas - faz-se um retiro (rohatsu sesshin) de meditação em homenagem aos esforços do Buda.

Que possamos adquirir e manter esse espírito de esforço e dedicação do Buda, para o benefício de todos os seres.

Gasshô! :)