4 de nov. de 2010

Na estação de trem

As velhas luzes da estação vascilam
Dançando ao farfalhar metálico dos trilhos
Eu ali espero você chegar,
Com olhos apertados à escuridão,
E o coração sapateando desregulado,
Como um velho trem abandonado
Correndo descarrilhado

3 de nov. de 2010

A Estrela

Ali no alto,
Brilhando despropositadamente,
Está a estrela que olhávamos ontem.
A mesma estrela que observou calada
Os mais excitantes romances escondidos
Sob o manto protetor da noite.
A paixão de Orfeu e Eurídice,
O desejo secreto de Julieta e Romeu,
Os devaneios de Marco Antonio e Cleópatra,
E o amor impossível de Píramo e Tisbe.
Estrela que inspirou Shakespeare,
Chaucer, Vinícius de Moraes, e Poe.
Serviu de guia aos reis magos,
E ajudou, por séculos, a traçar o destino do mundo.

Hoje ela continua ali,
Passando desapercebida e desinteressada,
No meio da poluição, das luzes da cidade,
Tentando se fazer enxergar
Por poetas perdidos na noite,
Se esforçando para ouvir os desejos dos amantes
(cada vez mais silenciados e descrentes,)
Procurando encontrar sentimentos puros
No meio de toda a sujeira aqui embaixo
E, olhe, cá entre nós:
Está cada vez mais difícil.

17 de out. de 2010

浄賢

(Ao Giuliano-senpai
Na ocasião de sua ordenação leiga,
16.10.10)


Quando se tem os olhos transparentes
A mente permanece como um calmo lago
Imenso, eterno e imperturbável
E, nessa quietude, não há julgamentos
Na ausência de julgamentos, não surge a dualidade
Na não-dualidade, há apenas a sabedoria
Apenas a sabedoria existe
Sabedoria límpida e imaculada
Sabedoria pura.

30 de set. de 2010

ODE à Ciência

Perco-me entre balanços de massa

Equações viriais e derivadas parciais

CSTRs, PFRs, PBRs e outros Rs mais

Perfis de concentração pelo tempo

Pelo tempo, pelo raio, pelo comprimento

Strings, loops e comentários

% só para deixar bem claro

% o que de claro nada tem


Mas a vida bem que podia ter seus ode, não é?

ode45, ode23, ode15s, ode102:

Pra solucionar cada infinitésimo de segundo que vier

Para cada interação (sempre não-ideal), pois

É sempre tão difícil entender o que se quer!

(Também o que não se quer, e o que nem se quer nem não se quer.)


Mas enquanto não prevemos da vida coisa alguma

Recolho-me à minha científica insignificância

À eterna labuta de compreender ao menos uma

Correndo como num sonho, numa eterna infância

Experimentando a maravilha de conhecer um mísero grão de areia

Frente à excitação de observar todo o mar infinito

Bem ali, ao toque dos dedos curiosos

E ao poético sonhar da imaginação sem limite.

11 de set. de 2010

Vinte e cinco

Os sonhos sempre mudam
Pois não é outra a natureza dos sonhos
Senão efêmera;
A vida também muda
Pois não é outra a natureza da vida
Senão efêmera;
Os olhos adquirem um novo brilho
Ora cansados,
Outrora nostálgicos:
Há muito saudosismo num quarto de século.
O olhar, contudo, é o mesmo;
O mesmo olhar apaixonado
E o mesmo olhar sonhador
(Ainda que os sonhos sempre mudem):
O mesmo olhar vazio.
No peito, um coração que arde
Que queima a chama da vida
A cada segundo que passa,
Ardendo como sol de meio-dia,
Pulsando com a energia de mil quasares
A vida que segue fluindo
Ordinária,
Única,
Especial,
Efêmera
E eterna.


3 de set. de 2010

A Espera

Na espera do momento perfeito
Os pequenos átimos de tempo
Escoam como moléculas de água
Pelo ar seco de inverno
Deslizando e se esgueirando
Delicadamente fugazes
Passeando pelo céu infinito
Pelo infinito da eternidade
Contida em cada segundo
Que passa desapercebido
Como a sombra de um cão guia a seu dono,
Conduzido passivamente
Enquanto vive a esperança
De abrir os olhos e andar sozinho.