7 de dez de 2014

Tonight

And tonight the Moon is sad,
Hiding behind a thin mist of tears;
Maybe the new tears of an old love story
Not unlike other millions of love stories,
But unique as only love stories can be.








31 de mar de 2014

Fins

Novas estações e novas faces,
Mais um começo do ciclo sem fim.
Um novo capítulo de um novo tomo
No mesmo livro de folhas em branco,
Vazias como as flores de cerejeira,
Que renascem as árvores mortas
Ao abraço morno do Sol vernal,
Como paixões que despedaçam
Corações empedrados em longos invernos
Ao esbarrar o Amor, por acaso,
Num tropeço de uma caminhada sem rumo.

E as flores desabrocham e caem;
As folhas em branco são escritas,
E todo livro recebe seu último verso.
Mas a árvore se lembra de cada broto,
Conhece o cheiro de cada pétala;
O escritor conhece cada capítulo,
E cada beijo de cada personagem
(Mesmo os jamais realizados.)
Novas estações e novas faces,
Só mais um começo do ciclo sem fim.
Mas o coração, esse nunca esquece.

26 de mar de 2014

O Velho



“Estamos no ar”
- Alô você!!! A sua Rádio Terapia está no ar. 66,6 mhz de frequência vibratória pelas veias do seu hardware celular. Eu sou Alter Ego, a sua voz do além dial. Hoje vamos receber uma visita nada especial mas pouco bem-vinda, o coveiro das galáxias. Bom dia Dr. Escaravelho!
- Bom dia Alter, bom dia ouvintes.
- Que boas novas o Doutor nos traz, nesta manhã, nem fria, nem quente.
- Nenhuma Alter, na verdade trago uma carta de demissão.
- É... não entendi doutor Escaravelho. Eu não sou seu patrão... (risos)
- Na verdade é uma carta de demissão como um abaixo assinado. São milhões de assinaturas...
- Como assim? Fizeram um abaixo assinado para o senhor pedir demissão? (risos)
- Não Alter, a humanidade está se demitindo.
- Bomba, bomba, ouvintes!!! Daqui a pouco o Doutor Escaravelho explica. Num oferecimento de “Quimioterapia Kardec, não queremos seus cabelos, só seu espírito”, a Rádio Terapia fará um breve intervalo no seu cosmos e voltaremos com o Doutor Escaravelho, o coveiro das galáxias.
“Fora do ar”
 (nona de Beethoven de fundo) “Capitalização Genoma. Invista seus recursos em genes e concorra mensalmente a uma encarnação nórdica e prospera. Não se preocupe, no final do plano você recebe tudo o que investiu com valores corrigidos. Genoma não é uma aposta, é a resposta”.
(Como é grande o meu amor por você, Roberto Carlos de fundo) “Funerária Vida Nova, jazigos verticais, mobiliados com tudo que seu ente querido vai precisar depois da vida. Temos planos exclusivos para aposentados e pensionistas, descontados diretamente de seus benefícios”
“Estamos no ar”
- Alo você!!! Voltamos com o Doutor Escaravelho, o coveiro das galáxias que estava nos falando sobre... (interrupção)
- Não temos muito tempo, Alter, preciso passar a mensagem que me trouxe aqui. Seu microfone está cortado a partir de agora.
- Você que está me ouvindo e você que não está, (não importa, na verdade) estou aqui para comunicar sua demissão da sua vida, que aliás, você mesmo assinou e certamente nem lembra mais.
- Há milhões de anos, quando você ainda era uma bactéria inóspita, foi combinado que habitaria neste planeta, reproduzindo e transformando seu habitat. Quando já tinha condições de raciocinar, portanto podendo decidir, combinamos que se demitiria da sua existência humana se, por intervenção sua, individual ou coletivamente, o habitat fosse esculhambado, desrespeitado ou estupidamente deteriorado.
- Enfim, isso tudo já aconteceu e está acontecendo novamente. O Velho já encharcou o planeta no grande dilúvio, recomeçamos do zero e não adiantou. Sua natureza, ser humano, é má. Não tem jeito, você é incorrigível.
- Recebi esse memorando ontem, o que na conta Dele é há mil anos, determinando usar a vossa carta de demissão, com um adendo; que eu lesse o memorando no ar, não ele todo mas a parte que fala a vocês. Então, vamos acabar logo com isso, tenho um trabalho absurdo pra fazer. Vamos lá:

“Diga isso aos meus filhos:
Como vocês envelheceram... O que é uma contradição, infelizmente. Tiveram tantas oportunidades... Criaram máquinas perfeitas, extraordinárias. Imitaram-se na expectativa de imitarem seu Criador. Dividiram o espaço que era comum em continentes, países, estados, cidades, vilas, bairros, vilarejos, ruas, casas, cômodos... Tudo isso pra inverterem o que havíamos combinado, ou seja, compartilharem-se. Alguns “iguais”, criaram seitas na esperança de se religarem a Mim. Das seitas criaram dogmas, doutrinas e destas inverteram o princípio básico da comunhão, o “somos todos um” se tornou “somos todos um, pero no mucho”. Diferentes, é isso o que conseguiram se tornar. Diferentes e indiferentes e diziam como lema: Cada um por si e Deus por todos. – “Opa, me coloquem fora disto”, eu vivia dizendo. Vocês nunca prestaram atenção. Nunca me ouviam e sempre tiveram “ouvidos de ouvir”. Paciência é um de meus atributos, Me glorifiquem por isso. Toda sentença tem um ponto final, as minhas reticencias já se esgotaram, apesar dos apelos do meu Filho. Hoje é o dia do Ponto Final. Verdadeiramente voltaremos a ser Um, mas preciso confessar uma coisa, (se é que “precise” qualquer coisa) foi bom ter me experimentado em vocês. Isso mesmo. O tempo todo, em todas as situações que vocês criaram, era Eu me experimentando. Quando inventaram a pólvora, era Eu querendo me divertir, não tinha ideia que a usaria de maneiras tão estupidas, mas também era Eu, experimentando seu mal, que também era Eu, para que houvesse o bem. Não saberia amor senão houvesse ódio. Experimentei-os em vocês. Preciso agradecer por isso. Na escuridão, Eu era luz e vice-versa. Como já disse tantas vezes, apesar de vossa surdes, Eu Sou. E ponto final.”
“Fora do Ar”

Em breve.



Estavam Deus e seu filho esperando o eterno
Choques galácticos, expansões cósmicas, luz
Em todos os momentos, ausentes de sentidos,
Senhores do tempo, comandavam o início e o fim

Chama o Pai "Ó meu Filho cheio de amor fraterno
Venha observar o que o céu infinito reluz"
Responde o Filho altivo tal qual Deus de estudos
"Cá Estou senhor Pai eterno, que desejas de mim?"

"De toda criação há algo que lhe escondi
No tempo eterno e imortal que temos
Tudo é tão rápido que até nós perdemos
Momentos de beleza e tristeza sutis

Em breve minha maior criação surgirá
Tão breve enfim ela irá desabar
Mas mesmo tão curta ela sim haverá
De me dar tanto orgulho de tudo criar

Pois tudo, até agora
É momento de outrora
É reflexo da aurora
Do que está por vir

A partir deste instante
Nada é mais importante
Nada mais significante
Do que vem no horizonte

um segundo só
um momento
e todo um sentimento se faz presente

uma vida só
um ente
e toda eternidade lhe será presente".

E disse Deus:
"Faça-se a música!"
E fez-se deus.






G. T. Ramos (2014)

23 de mar de 2014

Os Primeiros Esplendores


"A splendid branch issues from the old plum tree;
At the same time, obstructing thorns flourish everywhere."
(Keizan Jokin)*

~~

Das quatro estações do ano, a Primavera é possivelmente a mais feliz. Para nós, brasileiros, as estações podem ir e vir sem nem percebermos - exceto, talvez, quando começa e quando termina o Verão e precisamos adiantar ou atrasar nossos relógios em uma hora. Na maioria do hemisfério norte, contudo, os Invernos têm neve, as Primaveras têm flores, os Verões têm calor insuportável e os Outonos têm ruas abarrotadas de folhas secas.

Em Tokyo, o frio começa em meados de novembro; e pela primeira semana de dezembro, os termômetros já começam a descer abaixo dos 10 ºC. De dezembro até começo de abril, sair pra fora de casa sem casaco é masoquismo, já que as temperaturas flutuam do subzero aos 15, 16 ºC (max) em dias excepcionalmente quentes. Ou seja, passamos cerca de 1/3 do ano enrolados em roupas de frio e sob aquecedores: dá pra imaginar o quão prazeroso é sair para dar uma volta de camiseta, curtir um vento morno e ver as árvores saindo do seu estado hibernal e começando a florir.

Ciclo dos 24 termos solares asiáticos
Anteontem (dia 21 de março), celebrou-se aqui no Japão o "Dia da Primavera" (春分の日, shunbun no hi), um feriado nacional. Ele coincide com o que chamamos de equinócio de primavera (ou vernal) no Ocidente. A palavra equinócio deriva do latim aequinoctium, formada pela aglutinação de aequus (igual) e noctium (de noites), sugerindo o dia em que o número de horas do período diurno é equivalente ao número de horas do período noturno. No calendário ocidental, a primavera começa a partir do dia de equinócio vernal; mas aqui no Japão começa um pouco antes. O calendário tradicional do leste asiático é divido em 24 "termos solares", que marcam as principais mudanças na natureza. O primeiro evento do ano é o risshun (ou lichun, em mandarim), 立春, que significa a entrada da Primavera, e geralmente ocorre pelos primeiros dias de fevereiro, bem próximo do ano novo lunar/Chinês. Este evento é astronomicamente definido a partir do dia em que a longitude solar [1] atinge 315º (o equinócio vernal ocorre quando sua longitude atinge 0º), o que em 2014, por exemplo, ocorreu no dia 4 de fevereiro. Tradicionalmente, simboliza o meio do caminho entre o solstício de inverno e o equinócio vernal e representa o dia mais frio do ano: dali pra frente as temperaturas começam a subir gradualmente, conforme a primavera vai se desenrolando. O período que chamamos de primavera compreende, neste calendário asiático, os primeiros 6 pontos, viz. 立春 (entrada da primavera), 雨水 (água das chuvas [2]), 啓蟄 (acordar dos insetos [3]), 春分 (equinócio vernal), 清明 (clareza e brilho [4]), 穀雨 (chuva dos grãos [5]) e termina na véspera do rikka, 立夏, a entrada do Verão (6 de maio).


Já que falamos em Ásia, o ideograma usado por aqui para denotar a primavera, 春 (haru em japonês, chūn em mandarim), é formado por composição semântico-fonética, do seguinte modo: a forma atual é uma simplificação de 萅, que contém o radical 艸 (grama, folhagem) em cima ( 艹 ) e 日(sol) embaixo e o indicador fonético 屯 (lido zhun em mandarim, e que também significa agrupar, juntar) no meio. Portanto, é um ideograma que sugere o nascimento das folhagens e o ressurgimento do Sol.

Já para nós, que falamos o bom e velho Português, nossa "Primavera" tem uma origem não menos interessante e curiosa! No Latim clássico, as quatro estações eram: veraestās, auctumnus e hibernum. Em Português antigo, essa divisão dera origem às estações como Verão (nossa atual Primavera), Estio (nosso atual Verão), seguidos do Outono e o Inverno. Este trecho de uma das cartas de Gil Vicente [6] ilustra a separação entre Verão e Estio:

"(...) E para que melhor sintam suas pacíficas concordâncias,
todos os movimentos que neste orbe criou,
e os efeitos deles são litigiosos,
e porque não quis que nenhuma cousa tivesse perfeita duração sobre a face da terra,
estabeleceu na ordem do mundo que umas cousas dessem fim às outras,
e que todo o género de cousa tivesse seu contrário,
como vemos que contra a formosura do Verão, 
o fogo do Estio, 
e contra a vaidade humana a esperança da morte,
e contra o formoso parecer as pragas da enfermidade,
e contra a força a velhice,
e contra a privança inveja,
e contra a riqueza, fortuna;
e contra a firmeza dos fortes e altos arvoredos,
a tempestade dos ventos;
fortuna, sorte, azar
e contra os formosos templos e sumptuosos edifícios,
o tremor da terra,
que por muitas vezes em diversas partes tem posto por terra muitos edifícios e cidades,
e por serem acontecimentos que procedem da natureza não foram escritos,
como escreveram todos aqueles que foram por milagre,
como templum pacis de Roma,
que caiu todo subitamente no ponto que a virgem nossa Senhora pariu."   

Pois como foi que o Verão virou Primavera e o Estio virou Verão? Na Roma antiga, o ano começava no mês de março (antes da reforma do calendário em 45 a.C. por Júlio César), junto com a Primavera. Talvez para destacar a celebração da renovação da vida, os primeiros dias da estação eram conhecidos como prīma vera (do plural neutro acusativo de prīmus + ver). Aparentemente, essa nomenclatura acabou sendo adotada ao longo das regiões do vasto império romano e absorvida pelos idiomas derivados do latim. De fato, o termo em Francês reflete esse aspecto de primazia dessa estação, ao chamá-la de printemps, a primeira época. No Português do século XVI, por exemplo, as estações eram Primavera, Verão, Estio, Outono e Inverno, sendo as duas primeiras partes do que hoje reconhecemos como Primavera. O vocábulo latino para primavera, ver, por sua vez, parece ter a mesma raiz do prefixo sânscrito vas-, significando resplandecer, brilhar [7],[8], e há os que digam que é a mesma raíz de verde. Portanto, a Primavera seria a estação dos primeiros esplendores da Natureza; quando ela começa a despertar do estado de hibernação (hibernum) e esbanjar um verde novo, em todo seu esplendor.


  


--
* "Um ramo esplêndido surge da velha ameixeira;
Ao mesmo tempo, espinhos florescem por todo lugar."

Verso composto pelo mestre Keizan ao lecionar sobre a vida do buda Shakyamuni. O nascimento de Shakyamuni é celebrado em 8 de abril, e coincide com o ápice da Primavera. In: Keizan. The record of transmitting the light [Denkoroku], 1300. Trad. de Francis Cook. Wisdom Publications: Boston, 2003. pg. 31.
[1] Vide explicação neste link

[2] Indica a época do ano em que o que chove é água, e não mais neve; e que a neve pode então começar a derreter.

[3] Com o aquecimento da terra, os insetos começam a sair do estado de hibernação.

[4] A Natureza desperta com força, brilho e clareza. É a época em que as flores estão no ápice do florescer, o momento ideal pro hanami.

[5] Os campos de plantação são preparados, e as chuvas de primavera caem para nutrí-los.

[6] Carta que Gil Vicente mandou de Santarém a el-rei dom João, o terceiro do nome, estando sua alteza em Palmela, sobre o tremor da terra que foi a 26 de Janeiro de 1531. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[7] Entrada de "Primavera", Dizionario Etimologico Online. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014.

[8] Sir Monier Monier-Williams. A Sanskrit-English dictionary etymologically and philologically arranged with special reference to cognate Indo-European languages, Oxford: Clarendon Press, 1898, page 930. Disponível aqui. Acessado em 23 de março de 2014. 

19 de mar de 2014

AGORA EU SOU UMA ESTRELA



“Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol. Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante. E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais. E assim – dizem – recontam a vida. Agora retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Um forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela!”

(Fernando Faro)